terça-feira, 26 de outubro de 2010

Ensaio oitavo

O homem passou em frente ao cemitério e viu, escrito no muro, os seguintes dizeres:

Aqui dentro não há homens maus; não por não serem maus, mas por não mais haverem.

Por alguma razão isto o marcou profundamente, e depois desse ocorrido pode-se mesmo dizer que o homem não foi mais o mesmo.

Mas que besteira! Nunca somos "mais os mesmos", independentemente do que nos aconteça. Não importa o que se passe, desde que se passe; é isso que faz a diferença. A história do universo não seria a mesma se alterássemos algumas bobagens no passado, por mais insignificantes que fossem. E por isso mesmo até o termo "insignificante" estaria mal empregado, e deveríamos pois repensá-lo com cuidado.

Outra besteira, maior ainda que a primeira. Tu és mesmo um campeão em erros de juízo, e comete-os amiúde. Que nunca somos "mais os mesmos" hei eu de concordar. Mas que "não importa o que se passe, desde que se passe" é uma das maiores besteiras que já ouvi em toda minha vida. E o que fazer com o conteúdo? Apenas abandoná-lo como se este fosse supérfluo e insignificante? Ignorá-lo de forma deliberada? Seria como dizer que as cores e suas diferentes tonalidades não importam nada à visão, que a esta bastam as formas e os contornos. Seria um aviltamento não somente aos objetos e ao mundo que nos rodeia, mas sobretudo à nossa própria subjetividade enquanto juíza de valores. Parvo! É isso que tu és: um parvo.

E quanto ao termo "insignificante" nada temos que repensar no que diz respeito à sua acepção. A palavra quer dizer exatamente o que deve dizer e sua função é indispensável na nossa língua, pois representa uma ideia que é absolutamente fundamental que é a ideia de insignificância assim como a compreendemos. O problema, se encontra no fato de questionarmos se há ou não realmente no mundo coisas insignificantes, no sentido literal da palavra. É uma questão restrita ao empirismo! E mesmo que não haja, mesmo que se verifique que no fundo no fundo tudo no universo é significante, isso de forma nenhuma descredenciaria a insignificância enquanto ideia, enquanto ideal, da mesma forma que não eliminamos os dragões de nosso vocabulário pelo simples fato de não existirem de verdade.

Mas esta agora? Será possível? Será mesmo possível que tenhas invocado até mesmo dragões só para contrariar-me? Logo a mim, que sou tu. Quanta apelação! E me julgas, me condenas, me chamas por parvo mas nem ao menos dá-se conta que cometes tu também um erro de juízo. Jamais disse que deveríamos repensar o conceito imbuído em "insignificante"; fiz críticas relativas somente ao seu emprego, e isso quer dizer, necessariamente, críticas aos empregadores, que somos todos nós, incapazes de observar com acuidade que na verdade há sim significância por trás daquilo que outrora julgamos insignificante; e em momento nenhum fiz alusão alguma à possibilidade de haver ou deixar de haver insignificância nos objetos do mundo, embora concorde com a hipótese que levantastes de que é esse um problema que concerne ao empirismo e que dispensa, portanto, qualquer especulação do ponto de vista teórico. Portanto, meu caro, deverias te envergonhar profundamente pois não fostes nem ao menos digno de corrigir um parvo como eu corretamente. Se sou eu um parvo, e assumo que sou, tu o és em dobro!

O que? Que foi? Mas...não, espera! Não, não chores. Por Deus! sei bem que às vezes me falta melindre na forma como explano-te os pensamentos, mas te assevero que se há uma razão para tal é porque te amo e te conheço profundamente. Costumamos perder a delicadeza frente às pessoas que mais amamos, sei que parece estranho, não me orgulha nem um pouco dizer isso, mas é como se dá. Não há razão para amuar-se assim, venha, tome este lenço, seca-te.

Me desculpas, por favor. Tens razão, sou mesmo um parvo.

Não, não te culpes assim.

Não, sou sim. Sou um parvo porque quis eu ter razão, e isso é egoísmo. E o egoísmo é sim condenável.

Nesse sentido sou eu também culpado, porque quis também ter razão e fui pois egoísta. Ambos fomos, é a bem da verdade, ambos fomos. Venha, esqueçamos por hora esse assunto, esqueçamos.

Tens razão, esqueçamos. Espera! Mas e a história do homem, que leu os dizeres no muro, que suscitou toda essa discussão. O que deu-se com ele?

Ah isto? É insignificante.

sábado, 23 de outubro de 2010

Ensaio sétimo

"O viajante talvez estivesse preparado para tudo, menos para o nada."

E de repente, não mais que de repente, nosso viajante se depara com um hiato. Um profundo, longo e insuportável hiato. Uma pausa, abrupta, um quase que desligamento do mundo ao seu redor. Sente-se como que flutuando em um meio etéreo, como a poeira a dançar no ar parado, dessas que se vê iluminada de viés.

Período fértil para a reflexão introspectiva; péssimo para a ação objetiva.

E no entanto, ah no entanto! o mundo, as circunstâncias, o famigerado acaso (cão sem dono, réu confesso de todos os crimes sem culpados) cobram-lhe posturas e ações imediatas. Cobram dele, de nosso viajante solitário, esforços de alguém que tem os pés cravados no concreto.

Mas como andar se já não há mais chão?

Ele se esforça, nosso viajante. Contorce-se todo a procura de uma alavanca, de um impulsozinho que seja para que consiga tomar controle da rota que se segue. Mas seus esforços parecem ser em vão. E como está cansado! Céus, está cansado, cansadíssimo mesmo. A própria ideia de fazer esforços já lhe doi na carne como o próprio esforço.

Há ainda mais uma coisa em sua mente que o atormenta: por um lado, nunca antes em toda sua caminhada, estivera tão cansado e tão desejoso de fazer o tempo parar. De pará-lo ao seu prazer para descansar inadvertidamente. Está mesmo cansado de carregar seu fardo, já houve momentos antes em que a vontade de livrar-se de seus encargos atingiu limites lancinantes. Mas nada se comparado a agora. Nada se comparado à repulsa que seu próprio corpo e mente, em conjunto (quase que em complô!), sentem ao serem cobrados, intimados a agir ações que não desejam, que lhes são, propriamente ditas, alheias.

Por outro lado lhe é claro, que nunca antes em toda sua caminhada estivera tão próximo do fim quanto agora, e dependente, tão somente, de suas forças para concluí-la. Pelo menos assim o é em teoria. Pois ao tentar se contorcer mais uma vez, ao se forçar apontar na direção que lhe é cobrada, nosso viajante explode em ira:

— Ao inferno! Ao inferno todo isso! Minhas próprias forças é um demônio! Já não as tenho; subtraíram-me, minhas forças. Já não consigo me mover como antes, apenas me virar em torno de mim mesmo, debilmente. Estou aí, à deriva, vagando como um errante, rumando ao inexorável. Sou um pobre, um pobre mesmo e chego a ter pena de mim, dessa minha situação, de meu dilema, de minha impotência.

Desespera-se, nosso viajante, culpa-se, deprecia-se, excede os limites do razoável. Mas em seguida, acho mesmo que em decorrência dessa cena lamentável, acalma-se consideravelmente e recobra um pouco da consciência abalada. É nesse momento, que no peito do nosso viajante, no fundo do peito, beirando a alma, nasce um algo de esperança. E mesmo que inócua, e mesmo que desarrazoada em sua essência, e mesmo que com a esperança venha sempre o temor — como dizia aquele livrinho pardo, do francês, parafraseando Spinoza — ele se sente melhor, amparado, reconfortado na plenitude de sua ignorância, pois é humano afinal, e é justo que seja, pois é frágil, tolo e bravo. E isso basta!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Ensaio sexto

Depois de tanto tempo de reflexão, de meditação, chega-se, irremediavelmente, a este momento que nos aguarda. O momento em que se faz necessária a intervenção consciente sobre o puro acaso. Não podemos conter a corredeira inteira o tempo todo, é bem verdade; mas somos capazes, porque o aprendemos a ser, de transpor pequenos trechos desta, de intervir de maneira premeditada desviando pequenas porções deste fluxo incessante. O momento que nos aguarda se difere dos demais, e isso é bem sabido, e isso é impossível de se ignorar; e é por esta mesma razão que a ele, e a seus congêneres, atribuímos tamanha importância, destacando para, e a eles empregando, esforços redobrados. Sabes também que tais momentos destacam-se por uma dificuldade característica, como não poderia deixar de ser. Mas sabes também, por experiência adquirida, que é nesses momentos difíceis que tu cresces e consegues realizar coisas diferenciadas. Sabes que a força há de aparecer no momento certo, e que, de certo, não te abandonarás enquanto dela precisares. Sabes que confio em ti mais que a qualquer outro, e sabes também, e é bom que saibas, que apesar disso saberes, e apesar de seres pretenso como poucas vezes vi, continuas com os pés cravados na humildade e cônscio de suas fraquezas, medos, limitações e IGNORÂNCIA. Tome um gole de ar dessa noite gelada; contemple mais uma vez, e demoradamente, as estrelas que rasgam o firmamento às trevas; atente para o silêncio que agora emana da selva ao seu redor; faça uma última prece; dela duvide uma última vez; e recolha-te. Recolha-te que o amanhã há de surgir e então, tu estarás pronto para ele.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Fragmentos

A seguir um trecho muito interessante retirado da obra "Do Espírito das Leis" de Montesquieu, da coleção Os Pensadores da Editora Abril, traduzido para o português pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Nele o autor discute o princípio básico para o funcionamento de uma democracia: a virtude, ou como ele mesmo enfatizou a virtude política. Extremamente esclarecedor para nós que vivemos em uma república dita democrática, o texto (bem como todo o livro), escrito em 1748, pareceu-me muito atual e relevante, suscitando em mim novas reflexões e novas questões nunca antes abordadas.

[...]
ADVERTÊNCIA DO AUTOR1

Para a compreensão dos quatro primeiros livros desta obra, é preciso observar que o que chamo virtude na república é o amor à pátria, isto é, o amor à igualdade. Não é absolutamente virtude moral, nem virtude cristã, é virtude política; e essa é a mola que faz mover o governo republicano, como a honra é a mola que faz mover a monarquia. Chamei portanto de virtude política o amor à pátria e à igualdade. Concebi novas ideias; foi necessário encontrar novas palavras ou dar às antigas novas acepções. Os que não compreenderam isso fizeram-me dizer coisas absurdas e que seriam revoltantes em todos os países do mundo; pois, em todos os países do mundo, exige-se moral.
2.° Cumpre notar que há grande diferença entre dizer que certa qualidade, modificação da alma, ou virtude, não é a mola que faz agir o governo e dizer que ela não existe absolutamente nesse governo. Se eu dissesse: esta roda, este carrete não são a mola que faz mover este relógio, disso deveríamos concluir que eles não existem no relógio? Pouco importa que as virtudes morais e cristãs estejam excluídas da monarquia e que a própria virtude política não o esteja. Numa palavra, a honra existe na república, embora a virtude política seja sua mola; a virtude política existe na monarquia, embora a honra seja sua mola.
Enfim, o homem de bem ao qual nos referimos no livro III, capítulo V, não é o homem de bem cristão mas o homem de bem político, que possui a virtude política à qual me referi. É o homem que ama as leis de seu país e que age pelo amor às leis de seu país. Lancei uma nova luz em todas essas coisas nessa edição, precisando ainda melhorar as ideias; e, na maior parte das passagens em que me servi da palavra virtude coloquei virtude política.

1 Essa "Advertência", observa a edição de Laboulaye, "não existe nas primeiras edições. Foi escrita para responder às críticas da época, que consideraram um insulto ao governo e quase um crime de lesa-majestade, que um francês do século XVIII não fizesse da virtude o princípio da monarquia". Aliás, Montesquieu — ele próprio o assinala no final dessas linhas preliminares — confere a essas palavras, virtude, honra, um sentido bem delimitado, quase técnico.

[...]

Do princípio da democracia

Para que o governo monárquico ou despótico se sustente não é necessária muita probidade. A força da lei, no primeiro, o braço do príncipe sempre levantado, no segundo, tudo regulamenta ou contém. Mas, num Estado popular, é preciso uma força a mais: a Virtude49.
Isso é confirmado por toda a História e está muito de acordo com a natureza das coisas. Pois é claro que numa monarquia, onde quem manda executar as leis se julga acima das leis, tem-se a necessidade de menos virtude do que num governo popular, onde quem manda executar as leis sente que ele próprio a elas está submetido e que delas sofrerá o peso.
É claro ainda que o monarca que por maus conselhos ou negligência deixa de mandar executar as leis pode facilmente reparar o mal: basta modificar o Conselho ou se corrigir dessa negligência. Entretanto, quando num governo popular as leis não mais são executadas, e como isso só pode ser consequência da corrupção da república, o Estado já está perdido50. [...]

[...] Os políticos gregos, que viviam no governo popular, só reconheciam uma força capaz de mantê-los: a força da virtude52. Os políticos atuais só nos falam de manufaturas, de riquezas e até de luxo.
Quando esta virtude desaparece, a ambição penetra o coração dos que podem acolhê-la e a avareza apodera-se de todos. Os desejos mudam de objeto: não mais se ama aos que se amava; era-se livre com as leis, quer-se ser livre contra elas; cada cidadão é como um escravo que fugiu da casa de seu senhor; chama-se rigor o que era máxima; chama-se imposição o que era regra; chama-se temor o que era respeito. A frugalidade agora é avareza e não desejo de possuir. Outrora, os bens dos particulares constituíam o tesouro público mas, então, o tesouro torna-se patrimônio dos particulares. A república é um despojo mas sua força não é mais do que o poder de alguns cidadãos e a licença de todos. [...]

49 Devemos entender, pela palavra "virtude", a virtude do cidadão que Aristóteles já acrescentava às de homem honesto, mesmo as distinguindo. Política, cap. III, 2.
50 Aristóteles, Política, liv. V, cap. VIII.
52 Id., ibid., liv. II, cap. II.

Charles de Montesquieu em "Do Espírito das Leis"

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Ensaio quinto

Mortos estão: o crente, o ateu e o agnóstico. É chegada a hora do juízo final e os três vêem-se frente a frente com Deus. Este começa a chamá-los um a um para que se aproximem. Em primeiro lugar vem o crente e Deus lhe diz:

Acreditastes em minha existência de forma resoluta e inabalável durante toda tua vida ainda que não houvesse uma só prova razoável para tanto. Fostes tolo e por isso não poderás adentrar o reino dos céus. Como castigo deverás viver o resto de teus dias no inferno, e assim será.

Em seguida dirigiu-se ao ateu, que por um momento chegou mesmo a crer que teria melhor sorte que o primeiro, pois de tua tolice jamais havia compartilhado. No entanto, logo recobrou a consciência e lembrou-se que era Deus quem vos falava. Este disse-lhe:

Tu, ateu, fostes tolo duas vezes. Pois se prova não havia para minha existência, tampouco havia para condenar-me como fraude. Fostes precipitado e pretensioso, e por isso deverás acompanhá-lo ao inferno concluiu Deus apontando na direção do crente.

Por fim, Deus dirigiu-se ao agnóstico, que trazia no semblante a expressão de triunfo por haver concluído, por eliminação, que ele é que estava certo e que justamente por isso receberia de Deus as honrarias e a recompensa necessárias. O veredicto veio em tom seco e sem emoção:

Tu os acompanhas.

Tomado de surpresa irrefletidamente o agnóstico replicou:

Mas e eu por quê? Não fui tolo como o crente nem tampouco precipitado e pretencioso como o ateu. Não compartilhei de nenhum de seus pecados e por isso não devo ir para o inferno.

Eis que Deus lhe respondeu:

Não, não é pela tolice ou pretensão. Tu vais pela covardia.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Ensaio quarto

Falo pois para expressar o que sinto as sobrancelhas não bastam.

Se há alguma definição precisa para o amor verdadeiro, creio que esta deva passar, necessariamente, pela capacidade de sofrer as dores alheias. Questiono muito a legitimidade de algumas formas de amor praticadas. Não posso crer que ama verdadeiramente aquele que não se emociona e se fragiliza com as dores e os infortúnios de seus semelhantes. Muito me desagrada e impressiona a forma deturpada de demonstração de afeto dos tipos "frios", que incapazes de vencer seus próprios demônios submetem o amor à uma série de regulamentações e processos burocratizantes, tradicionais do modo de vida capitalista, danificando-o permanentemente, tal como uma atrofia. Em tais seres observa-se também traços fortes de egoísmo, mesquinharia e empáfia; popularmente são bem definidos pelos desígnios "filho da puta" e "escroto", havendo variações de intensidade do tipo "tremendo filho da puta (escroto)" e mesmo composições tais como "puta de um escroto". Assusta-me às vezes verificar que tais tipos costumam ser muito bem sucedidos em suas empresas; mas por entender que seus objetivos são sempre desprovidos de nobreza recuso-me veementemente, e às vezes, confesso, teimosamente, a acreditar que tais características constituam-se de fato virtudes. Rezo para que o mundo cada vez mais propicie circunstâncias adequadas ao exercício do amor em sua forma plena, e que os tipos "frios" minguem desgraçadamente; rumando, pouco a pouco, ao sepulcro da inexistência.

domingo, 30 de maio de 2010

Teorias do Absurdo VIII

A razão é o grande engodo da humanidade; uma falácia; um grande sofisma. Tem a função única de respaldar os absurdos cometidos por nós seres humanos enquanto movidos única e exclusivamente pela emoção. E é isso! Se pouco tenho a falar sobre este tema é porque eu próprio não o compreendo, ao menos não da forma como gostaria.

E como gostaria eu de entendê-lo, pergunto-me? Quem quer entender, se não meu lado puramente racional? sou levado a questionar. Se é como digo, então temos um conflito estranho: ao buscar de forma estritamente racional uma coerência lógica em meu próprio comportamento racional começo a perceber que este em verdade é absurdo e totalmente incompatível com os dogmas assumidos como ponto de partida. Como se o modo racional de se pensar pusesse em xeque a própria razão enquanto forma de pensamento. Mas isto é o maior dos absurdos, e jamais, repito jamais, seria aceito como razoável por qualquer tipo de inteligência sob qualquer tipo de ponto de vista, e nisto incluo-me.

Mas não é isto a ilusão perfeita? questiono-me. Se acaso existisse um mecanismo perfeito capaz de iludir-nos completamente, então este não pareceria-se a nós exatamente como descrito acima? Se acaso a verdade, a real verdade, fosse absolutamente impossível de ser aceita como verdadeira pelo instrumento que define o que é verdade e nos auxilia a discerní-la então este não constituir-se-ia um engodo perfeito?

Céus! Como analisa-se o próprio instrumento de análise*? É isto possível? É isto relevante? Será que não provém desta questão toda a confusão e embaraço supracitados? Pode-se pôr a mente ela própria a serviço de auto investigar-se? Se sim gostaríamos que as conclusões de tal investigação continuassem coerentes com todo o resto de aplicações aparentemente tão bem sucedidas da mente, e não as contradissesse! Se não, enfim, para mim em particular seria uma grande frustração, além de uma tremenda deselegância por parte da natureza. Mas nesse caso então deveríamos interpretar a razão de que forma? Como um instrumento válido somente dentro de um certo domínio? Cujas aplicações devem restringir-se à um determinado conjunto de questões e jamais extrapolarem o limite destas?

Às vezes parece-me que a razão é meramente um instrumento evolutivo, cujo desenvolvimento dá-se somente como forma de melhor adaptar os seres humanos ao meio em que vivem e desta forma garantir a famigerada perpetuação da espécie. Assim, cru, sem grandes romances, como o faz uma grande presa em um carnívoro ou o veneno em um animal peçonhento; e somos nós, tolos, que fantasiamos todo o resto. Como se os conflitos existenciais causados em nós pela gênese da razão tivessem como único intuito impulsionar a raça humana em direção à evolução da espécie. Como se a natureza tivesse visto nisso uma grande oportunidade de dar sequência ao seu tão precioso projeto, que a nós tanto intriga e admira.

Tal pensamento reconforta-me por sua covardia. Pois não há na vida sensação melhor do que acovardar-se.

Assim sendo, a razão passaria a ter o mesmo status que um outro órgão qualquer, como os rins e o pâncreas por exemplo, e todos eles em conjunto teriam como objetivo única e exclusivamente manter-nos vivos assegurando com isso a preservação do indivíduo e consequentemente da espécie.

É, talvez seja isso mesmo. Pois a sede do saber jamais é satisfeita. As dúvidas só trazem mais dúvidas e parecem afastar cada vez mais pra longe as certezas tão sonhadas. Capaz que seja. Em verdade somos nós pura emoção e é por isso que ao darmos vazão à estas nos sentimos tão à vontade, pois estamos em contato direto com aquilo que nos é próprio e constituinte. A razão é a alienação da emoção, um órgão, um mecanismo, engendrado com intuito de suprimí-la e iludir-nos, de arrancar de nós esforços indevidamente empregados em um projeto maior que não nos pertence e que desconhecemos. Somos na verdade vítimas desse litígio e eternos combatentes nessa luta desmedida, onde, armados com a razão, lutamos por uma causa alheia acreditando lutar por objetivos da mais alta nobreza. É mesmo um grande sofisma, uma falácia, o maior dos engodos.


*Quis custodiet custodes ipsos?
(Quem vigiará os vigilantes?)

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Fragmentos

Uma lição não só para atores, e sim para todo e qualquer indivíduo cônscio da necessidade de se evitar uma vida efêmera. O texto a seguir reflete, na minha visão, a necessidade de se buscar o seu próprio caminho; de, respeitando as suas características pessoais e inalienáveis, encontrar a sua forma de realização, quer seja de uma cena, quer seja de qualquer outra empreitada que se dispuser a cometer na vida. Desta forma, sempre pautando suas ações em cima destes princípios, o indivíduo confere às últimas (as ações) conteúdo. Ele as preenche de significado, tornando-as, de certa forma, densas e robustas; e ao meu ver, ao fazê-lo, estas tornam-se especiais não somente sob o seu ponto de vista, mas adquirem um novo caráter, potencializado, capaz de transformar o meio na qual se inserem. Creio sobretudo, tratar-se de uma série de práticas que têm como objetivo garantir a harmonia entre o indivíduo e aquilo que este faz, além de configurarem-se, elas próprias, um valioso exercício de auto-conhecimento.

[...] Nunca se perca no palco. Atue sempre em sua própria pessoa, como artista. Nunca se pode fugir de si mesmo. O instante em que você se perde no palco marca o ponto em que deixa de verdadeiramente viver seu papel e o início de uma atuação exagerada, falsa. Assim, por mais que atue, por mais papéis que interprete, nunca conceda a si mesmo uma exceção à regra de usar sempre os próprios sentimentos. Quebrar essa regra é o mesmo que matar a pessoa que você estiver interpretando, pois a estará privando de uma alma humana, viva, palpitante, que é a verdadeira fonte da vida do papel. [...]

[...] Sempre e eternamente, quando estiver em cena, você terá de interpretar a si mesmo. Mas isto será numa variedade infinita de combinações de objetivos e circunstâncias dadas que você terá preparado para seu papel e que foram fundidos na fornalha da sua memória de emoções. É este o melhor e o único material verdadeiro para a criatividade interior. Utilize-o e não confie em nenhuma outra fonte para abastecer-se. [...]

Constantin Stanislavski em "A preparação do ator"

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Nécessité de la liberté dans la recherche scientifique

L’histoire des sciences montre que, dans leur domaine, les plus grands progrès ont été effectués par des penseurs audacieux qui ont aperçu des voies nouvelles et fécondes que d’autres n’apercevaient pas. Si les idées des savants de génie qui ont été les promoteurs de la science moderne avaient été soumises à des commissions de spécialistes, elles leur auraient sans nul doute paru extravagantes et auraient été écartées en raison même de leur originalité et de leur profondeur. En fait, les luttes soutenues, par exemple, par Fresnel et par Pasteur suffiraient à le prouver, certains de ces pionniers se sont heurtés à l’incompréhension de savants éminents et ils ont dû lutter avec énergie avant d’en triompher. Plus récemment, dans le domaine de la Physique théorique dont je puis parler en connaissance de cause, les magnifiques conceptions de Lorentz, de Planck et surtout d’Einstein se sont heurtées à l’incompréhension de savants éminents. Ils en ont triomphé, mais à mesure que l’organisation de la recherche devient plus rigide, le danger augmente que les idées nouvelles et fécondes ne puissent pas se développer librement. Tirons en quelques mots la conclusion de ce qui précède. Tandis que, par la force même des choses, s’appesantissent sur la recherche et sur l’enseignement le poids des structures administratives et des préoccupations financières et la lourde armature des réglementations et des planifications, il devient plus indispensable que jamais de préserver la liberté de la recherche scientifique et la libre initiative des chercheurs originaux parce qu’elles ont toujours été et resteront toujours les sources les plus fécondes des grands progrès de la Science.

25 avril 1978, Louis de Broglie


O texto acima foi escrito pelo autor para o Annales de la Fondation Louis de Broglie em comemoração ao centenário de Einstein. Ele reflete um pouco da visão que este grande pensador tinha com relação à interpretação e desenvolvimento das teorias físicas. De Broglie foi um dos fundadores da mecânica ondulatória. Suas ideias acerca de uma simetria da natureza, na qual a matéria, assim como a radiação, deveria apresentar tanto fenômenos ondulatórios quanto corpusculares, foram fundamentais para o estabelecimento da teoria quântica moderna. Apesar de ter sido um dos defensores da escola de Copenhagen, com o tempo de Broglie passou a questioná-la e mesmo a achá-la insatisfatória. A questão central de seus pensamentos dizia respeito a um única partícula quântica; em seu trabalho original de Broglie tentou imaginar uma onda real física que transportasse objetos pontuais ao longo do espaço no curso do tempo, assumindo para isso que a partícula possuía uma vibração interna e portanto não se movia ao longo de uma trajetória. Por essas razões de Broglie escreveu: "Mas ao contrário do que é usualmente admitido, a mecânica quântica não tem o direito de postular que a frequência e o comprimento de onda são diretamente proporcional à energia e inversamente proporcional ao momento, respectivamente, pois a energia e o momento de uma partícula são propriedades que estão associadas ao conceito de um objeto localizado que se move pelo espaço ao longo de uma trajetória. A razão pela qual eu pude estabelecer tais fórmulas foi que desenvolvi a hipótese de uma partícula localizada dentro de uma onda." Por ser um dos mais célebres físicos da época, sua postura dubitativa com relação à interpretação da mecânica quântica causou certo espanto na comunidade científica sucitando estranhamento e mesmo certa discriminação, o que é natural do ser humano. O que me chama a atenção positivamente na postura e no pensamento de de Broglie, é o fato de acreditar que toda e qualquer teoria que se proponha a descrever os fenômenos naturais tenha que ser pautada na clareza absoluta de seus argumentos, de tal forma a ser capaz de responder satisfatoriamente importantes questões de ordem estrutural, evitando assim arbitrariedades e inconsistências na teoria. Em suma creio que seja a defesa ao direito de ter dúvidas, e de exigir que a teoria seja capaz de esclarecê-las com rigor arbitrário. A seguir a tradução* (livre) para o português.


Necessidade da liberdade na pesquisa científica

A história da ciência mostra que, em seus domínios, os maiores progressos foram realizados por pensadores audaciosos que enxergaram novos e fecundos caminhos que outros não enxergavam. Se as ideias de cientistas geniais, promotores da ciência moderna, fossem submetidas à comissões de especialistas, estas teriam sido, sem sombra de dúvida, consideradas extravagantes e seriam descartadas em razão exatamente de sua originalidade e profundidade. De fato, as lutas travadas, por exemplo, por Fresnel e por Pasteur bastam como prova de que alguns destes pioneiros foram vítimas da incompreensão de cientista eminentes e tiveram que lutar energicamente antes de triunfarem. Mais recentemente, no domínio da Física teórica da qual posso falar com conhecimento de causa, as magníficas ideias de Lorentz, Planck e sobretudo de Einstein, sofreram com a incompreensão de cientistas eminentes. É verdade que ao final triunfaram; mas à medida em que a organização da pesquisa científica se torna mais rígida, aumenta o perigo de que novas e fecundas ideias não possam se desenvolver livremente.
Resumamos em poucas palavras a conclusão acerca do que foi dito. À medida em que, pela própria força das circunstâncias, sobrepõe-se à pesquisa e ao ensino o peso das estruturas administrativas e preocupações financeiras, e a pesada armadura de regulamentação e planejamento, torna-se mais indispensável do que nunca preservar-se a liberdade da pesquisa científica e a livre iniciativa de pesquisadores originais, porque estas sempre foram e sempre continuarão sendo as fontes mais férteis de grandes progressos na Ciência.

*Traduttore, traditore.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Teorias do Absurdo I

O fato de não haver, no plano do diálogo, o emprego da força bruta, não assegura a existência de um ambiente onde reine a razão e a justiça, de sorte a conferir-lhe as mesmas imperfeições e desmandos encontrados nas disputas selvagens e brutais da natureza; com a ressalva, entretanto, de não punir os participantes de tais embates com mutilações, ou até mesmo a morte, no caso de derrota. Ao menos não no sentido usual de tais desígnios.
No entanto, não posso dizer que é o ser humano incapaz de elaborar raciocínios e formar juízos guiado pura e simplesmente pela razão; muito embora, em alguns momentos de destempero, tenda a defender tal teoria. Em contra partida, não posso também ignorar o fato de que diversas vezes o mesmo ser humano utiliza-se da razão, i.e. de todo o seu maquinário intelectual, para justificar e defender posições no intuito único de respaldar comportamentos e atitudes absolutamente pueris, florescidas no âmago daquilo que, na falta de melhor designação, chamaria de dragões do egoísmo; seres que habitam uma região próxima à boca do estômago — como é bem sabido por todos aqueles que estudaram o célebre livro de H. Martin e R. Lindsay Anatomia Emocional — e de características bastante particulares: cegos e invisíveis, dotados de um humor imprevisível e de uma fúria implacável — como é também bem sabido pelo público estudioso do livro Seres que nos habitam e seus comportamentos do grande autor russo A. Romanov.
Tudo isso pra justificar minha teoria de que é sim possível perder uma discussão mesmo quando se tem total razão no ponto de vista defendido. Pois uma vez que o diálogo não garante um ambiente onde impere a justiça, há naturalmente um desequilíbrio de forças, que estabelece a noção de poder, seguido da disputa pela sua obtenção e controle. Como consequência imediata, temos o surgimento de seres mais poderosos em tal modalidade, que sem grandes dificuldades conseguem superar seus oponentes através de abusos permitidos pela posição privilegiada que ocupam. Dessa forma, mesmo defendendo ideais desprivilegiados dos pontos de vista racional e ético, obtêm sucesso em suas empresas através da desmoralização do oponente, que, por mais absurdo que pareça, sente-se em situação inferior, perdendo desta forma toda a confiança em seus próprios argumentos. E como bem sabemos — segundo o best-seller de G. Benjamin A origem das emoções; mapeando a mente e decifrando o comportamento humanoo homem sem confiança é a mais frágil das instituições.

terça-feira, 23 de março de 2010

Teorias do Absurdo V

Em um mundo doente virtudes são fraquezas. E antes que reclamem apresso-me em dizer: não tomo aqui a definição usual para o verbo ser, pois de fato creio que esta é — não incompleta — mas inadequada, e justifico a seguir.

O estado das coisas não me parece ser absoluto, mas dependente da forma como estas interagem com o meio ao seu redor. O estado das coisas, por consequência, depende do interagente, pois a natureza da interação só pode depender da natureza dos objetos envolvidos. Logo, o ato de aferir não é a simples constatação de uma verdade universal e absoluta, independente do ponto de vista e alheia à tudo que a cerca. O ato de aferir é ele próprio criador da realidade mensurada. A defesa, portanto, de que virtudes são fraquezas — ou não — não pode independer, ou não pode estar alheia, ao contexto da análise. Não podemos atribuir às virtudes o status de fraqueza, ou de qualquer outra predicação, como se isso fosse intrínseco ao objeto analisado; como se esta fosse uma característica que o objeto carrega sempre consigo — e a apresenta quando solicitado — independentemente de qualquer fator exterior. O objeto não possui propriedade sobre suas características, estas são na verdade resultado de inferências realizadas por outrem acerca de seu estado, e sob tais condições devem ser entendidas. Desta forma, o conjunto de atributos que caracteriza um determinado objeto pode variar de acordo com as circunstâncias externas, tornando-se admissível que objetos sejam coisas diferentes — até mesmo antagônicas — sem que firamos nenhum postulado lógico, possibilitando assim a conciliação entre a ideia de paradoxo, tão recorrente no pensamento humano, e as diretrizes fundamentais daquilo que guia o raciocínio lógico, cuja infringência tanto nos assoma.

Devo ainda dizer que nada é antes que tenha sido experimentado, daí o compromisso tão grande que há entre a realidade e a experimentação. A experimentação não é a simples constatação da realidade, é a própria criação da realidade. E mesmo que possa parecer ultrajante, o argumento escora-se na má definição de realidade. Vale à pena questionar-se: afinal o que é a realidade? É esta o conjunto de verdades universais e absolutas capazes de descrever o mundo ao nosso redor? A existência da realidade independe da experimentação, i.e. está lá a realidade construída esperando que a observemos? Creio, sinceramente, que não. E creio que venha dessa visão supracitada os mal-entendidos, as incoerência e as conclusões imprecisas surgidas ao analisar-se questões como a discutida no parágrafo anterior em detalhes. Creio que aquele que diz «Não, as virtudes não podem, jamais, ser fraquezas» baseia-se exclusivamente em observações obtidas em uma análise do objeto (as virtudes), quando de sua inserção em outro contexto que não o citado inicialmente; e, guiado por uma visão tradicionalista, conclui que as características aferidas nesse contexto em particular devem ser as características naturais e intrínsecas ao objeto, e isso por si só bastaria para contradizer a afirmação primeira, pois não poderia, a princípio, o objeto ser algo e também sua negação. É exatamente nesse ponto que devo reforçar meu argumento: sim, o objeto pode ser algo e também a sua negação, pois o conceito de ser é estabelecido de tal forma a comportar tal paradoxo. O conceito de ser é estabelecido à partir da experimentação e o resultado da experimentação não é unívoco, mas dependente do meio que o cerca, dependente do interagente. Dessa forma, o mesmo objeto pode apresentar características diferentes dependendo do interagente com o qual interage, ou dos interagentes, que coletivamente podemos chamar de meio exterior; quando questionado acerca de uma mesma questão, i.e. quando mensurada uma mesma grandeza sua.

O texto acima representa uma série de esforços meus para transcrever em palavras ideias compeendidas pela minha mente em forma de sentimentos. Devo enfatizar que apesar dos esforços, certa dose de insucesso é inevitável nesse processo de transcrição. Portanto, certa dose de perdão faz-se imprescindível na interpretação rigorosa das ideias transcritas; na lógica que as concatena e em seus desdobramentos. Eu mesmo devo assumir que minhas próprias ideias sob representação escrita desagradam-me na maior parte das vezes; pois as conheço profundamente, ainda que sob outra representação, e sei exatamente a signatura que deixam em minha mente. Entretanto, de raro em raro encanto-me ao relê-las, pela surpresa de conseguir reconhecê-las empedernidas sob a forma de palavras; de reconhecer que aquelas palavras conseguiram reproduzir em mim, de alguma forma, a signatura tão característica das minhas ideias primitivas sob forma de sentimento, e que, portanto, há uma correspondência fidedigna entre ambas representações. Na minha concepção, tal fato é, sem dúvida, digno de admiração; e constitue pois uma arte. Sob o status de arte, as incoerências lógicas, os "cantos vivos" da teoria são suavizados e esta pode ser interpretada sob uma ótica que permita a apreciação de seus pontos fortes, que devo salientar existem; e existem única e exclusivamente em um ambiente como este, o único que apresenta as condições necessárias para seu surgimento e exercício.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Teorias do Absurdo IV

Acalma-te tu. Acalma-te tu que em breve tudo estará terminado. Muito em breve. Muito em breve para quem já suportou tanto tempo. Eu sei que o coração já não aguenta mais esperar, porque este é desprovido de razão, e a razão é realmente um mal necessário. A razão é um mal, sobretudo. É ela que corrompe o coração e o põe à serviço de interesses que este não tem; pois o coração é incapaz de ter interesses, não que seja puro, pois nem puro pode ser, somente não tem acesso à tais predicados, não é esta a sua função. Digamos simplesmente que por tais trilhos este não corre, tal como não podem os olhos escutar nem tampouco os ouvidos ver. E se é a nós difícil entender e fazer tal distinção, talvez o seja pelo fato de experimentarmos os sentidos todos misturados.

Mas de repente me ocorre que talvez não seja a razão um mal afinal. Talvez seja ela pura em essência assim como a emoção. Talvez esteja na interação de ambos a raiz do problema. Talvez quando postas juntas interajam de tal forma a dar origem à um terceiro objeto, fruto da interação, ou talvez à um único objeto, posto que agora não faz mais sentido falar de cada uma das partes separadamente. Talvez isso venha a corroborar a hipótese de que coisas distintas quando juntas não mais são somente elas superpostas. Talvez haja algo mais, talvez haja uma mudança de estado. Indo mais além podemos mesmo pensar que pode ser um erro dizer que um dado objeto, quando isolado, esteja em seu estado natural. Talvez seja injusto atribuir às características aferidas nesse particular estado, o caráter de próprias e absolutas de determinado objeto. Talvez esteja mesmo errada a concepção de ser em nossas mentes. Talvez esteja tudo errado, e mais ainda os juízos meus. Talvez por isso mesmo a filosofia não seja ciência e seja arte afinal. Pois aí afrouxam-se as críticas e o rigor, diminuem-se as expectativas e as cobranças, e têm-se a liberdade de dizer brincando aquilo que mais nos atormenta e faz sofrer. Talvez supramos a sede do saber com algo que não é propriamente uma resposta. E talvez nem nos demos conta disso. Talvez busquemos respostas simplesmente porque ao fim acabamos por satisfazer a necessidade que deu origem à tal busca, mas sem ao menos pararmos para averiguar se isso se deveu à uma resposta. Então talvez a concepção de resposta esteja errada. Ou então talvez não consigamos conceber de maneira clara que a compreensão que temos de questões quaisquer independe das palavras. Talvez não compreendamos de forma clara qual o papel da linguagem em nossas atividades intelectuais, qual a relação que esta desenvolve com a razão e a emoção.

Céus! Quanto mais rigor se tenta impor na análise de tais questões, mais a confusão se apodera de nossas mentes.

Aquele que não se permite errar não se permite andar. Aquele que persegue a perfeição de forma realmente decidida não chega a ponto algum. Deus permitiu-lhe ser, mas só. Se quiseres tentar, erras. Erras primeiro, pois desta feita mesmo que trabalhes arduamente para evoluir jamais alcançarás a perfeição.