"O viajante talvez estivesse preparado para tudo, menos para o nada."
E de repente, não mais que de repente, nosso viajante se depara com um hiato. Um profundo, longo e insuportável hiato. Uma pausa, abrupta, um quase que desligamento do mundo ao seu redor. Sente-se como que flutuando em um meio etéreo, como a poeira a dançar no ar parado, dessas que se vê iluminada de viés.
Período fértil para a reflexão introspectiva; péssimo para a ação objetiva.
E no entanto, ah no entanto! o mundo, as circunstâncias, o famigerado acaso (cão sem dono, réu confesso de todos os crimes sem culpados) cobram-lhe posturas e ações imediatas. Cobram dele, de nosso viajante solitário, esforços de alguém que tem os pés cravados no concreto.
Mas como andar se já não há mais chão?
Ele se esforça, nosso viajante. Contorce-se todo a procura de uma alavanca, de um impulsozinho que seja para que consiga tomar controle da rota que se segue. Mas seus esforços parecem ser em vão. E como está cansado! Céus, está cansado, cansadíssimo mesmo. A própria ideia de fazer esforços já lhe doi na carne como o próprio esforço.
Há ainda mais uma coisa em sua mente que o atormenta: por um lado, nunca antes em toda sua caminhada, estivera tão cansado e tão desejoso de fazer o tempo parar. De pará-lo ao seu prazer para descansar inadvertidamente. Está mesmo cansado de carregar seu fardo, já houve momentos antes em que a vontade de livrar-se de seus encargos atingiu limites lancinantes. Mas nada se comparado a agora. Nada se comparado à repulsa que seu próprio corpo e mente, em conjunto (quase que em complô!), sentem ao serem cobrados, intimados a agir ações que não desejam, que lhes são, propriamente ditas, alheias.
Por outro lado lhe é claro, que nunca antes em toda sua caminhada estivera tão próximo do fim quanto agora, e dependente, tão somente, de suas forças para concluí-la. Pelo menos assim o é em teoria. Pois ao tentar se contorcer mais uma vez, ao se forçar apontar na direção que lhe é cobrada, nosso viajante explode em ira:
— Ao inferno! Ao inferno todo isso! Minhas próprias forças é um demônio! Já não as tenho; subtraíram-me, minhas forças. Já não consigo me mover como antes, apenas me virar em torno de mim mesmo, debilmente. Estou aí, à deriva, vagando como um errante, rumando ao inexorável. Sou um pobre, um pobre mesmo e chego a ter pena de mim, dessa minha situação, de meu dilema, de minha impotência.
Desespera-se, nosso viajante, culpa-se, deprecia-se, excede os limites do razoável. Mas em seguida, acho mesmo que em decorrência dessa cena lamentável, acalma-se consideravelmente e recobra um pouco da consciência abalada. É nesse momento, que no peito do nosso viajante, no fundo do peito, beirando a alma, nasce um algo de esperança. E mesmo que inócua, e mesmo que desarrazoada em sua essência, e mesmo que com a esperança venha sempre o temor — como dizia aquele livrinho pardo, do francês, parafraseando Spinoza — ele se sente melhor, amparado, reconfortado na plenitude de sua ignorância, pois é humano afinal, e é justo que seja, pois é frágil, tolo e bravo. E isso basta!
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