sexta-feira, 9 de abril de 2010

Nécessité de la liberté dans la recherche scientifique

L’histoire des sciences montre que, dans leur domaine, les plus grands progrès ont été effectués par des penseurs audacieux qui ont aperçu des voies nouvelles et fécondes que d’autres n’apercevaient pas. Si les idées des savants de génie qui ont été les promoteurs de la science moderne avaient été soumises à des commissions de spécialistes, elles leur auraient sans nul doute paru extravagantes et auraient été écartées en raison même de leur originalité et de leur profondeur. En fait, les luttes soutenues, par exemple, par Fresnel et par Pasteur suffiraient à le prouver, certains de ces pionniers se sont heurtés à l’incompréhension de savants éminents et ils ont dû lutter avec énergie avant d’en triompher. Plus récemment, dans le domaine de la Physique théorique dont je puis parler en connaissance de cause, les magnifiques conceptions de Lorentz, de Planck et surtout d’Einstein se sont heurtées à l’incompréhension de savants éminents. Ils en ont triomphé, mais à mesure que l’organisation de la recherche devient plus rigide, le danger augmente que les idées nouvelles et fécondes ne puissent pas se développer librement. Tirons en quelques mots la conclusion de ce qui précède. Tandis que, par la force même des choses, s’appesantissent sur la recherche et sur l’enseignement le poids des structures administratives et des préoccupations financières et la lourde armature des réglementations et des planifications, il devient plus indispensable que jamais de préserver la liberté de la recherche scientifique et la libre initiative des chercheurs originaux parce qu’elles ont toujours été et resteront toujours les sources les plus fécondes des grands progrès de la Science.

25 avril 1978, Louis de Broglie


O texto acima foi escrito pelo autor para o Annales de la Fondation Louis de Broglie em comemoração ao centenário de Einstein. Ele reflete um pouco da visão que este grande pensador tinha com relação à interpretação e desenvolvimento das teorias físicas. De Broglie foi um dos fundadores da mecânica ondulatória. Suas ideias acerca de uma simetria da natureza, na qual a matéria, assim como a radiação, deveria apresentar tanto fenômenos ondulatórios quanto corpusculares, foram fundamentais para o estabelecimento da teoria quântica moderna. Apesar de ter sido um dos defensores da escola de Copenhagen, com o tempo de Broglie passou a questioná-la e mesmo a achá-la insatisfatória. A questão central de seus pensamentos dizia respeito a um única partícula quântica; em seu trabalho original de Broglie tentou imaginar uma onda real física que transportasse objetos pontuais ao longo do espaço no curso do tempo, assumindo para isso que a partícula possuía uma vibração interna e portanto não se movia ao longo de uma trajetória. Por essas razões de Broglie escreveu: "Mas ao contrário do que é usualmente admitido, a mecânica quântica não tem o direito de postular que a frequência e o comprimento de onda são diretamente proporcional à energia e inversamente proporcional ao momento, respectivamente, pois a energia e o momento de uma partícula são propriedades que estão associadas ao conceito de um objeto localizado que se move pelo espaço ao longo de uma trajetória. A razão pela qual eu pude estabelecer tais fórmulas foi que desenvolvi a hipótese de uma partícula localizada dentro de uma onda." Por ser um dos mais célebres físicos da época, sua postura dubitativa com relação à interpretação da mecânica quântica causou certo espanto na comunidade científica sucitando estranhamento e mesmo certa discriminação, o que é natural do ser humano. O que me chama a atenção positivamente na postura e no pensamento de de Broglie, é o fato de acreditar que toda e qualquer teoria que se proponha a descrever os fenômenos naturais tenha que ser pautada na clareza absoluta de seus argumentos, de tal forma a ser capaz de responder satisfatoriamente importantes questões de ordem estrutural, evitando assim arbitrariedades e inconsistências na teoria. Em suma creio que seja a defesa ao direito de ter dúvidas, e de exigir que a teoria seja capaz de esclarecê-las com rigor arbitrário. A seguir a tradução* (livre) para o português.


Necessidade da liberdade na pesquisa científica

A história da ciência mostra que, em seus domínios, os maiores progressos foram realizados por pensadores audaciosos que enxergaram novos e fecundos caminhos que outros não enxergavam. Se as ideias de cientistas geniais, promotores da ciência moderna, fossem submetidas à comissões de especialistas, estas teriam sido, sem sombra de dúvida, consideradas extravagantes e seriam descartadas em razão exatamente de sua originalidade e profundidade. De fato, as lutas travadas, por exemplo, por Fresnel e por Pasteur bastam como prova de que alguns destes pioneiros foram vítimas da incompreensão de cientista eminentes e tiveram que lutar energicamente antes de triunfarem. Mais recentemente, no domínio da Física teórica da qual posso falar com conhecimento de causa, as magníficas ideias de Lorentz, Planck e sobretudo de Einstein, sofreram com a incompreensão de cientistas eminentes. É verdade que ao final triunfaram; mas à medida em que a organização da pesquisa científica se torna mais rígida, aumenta o perigo de que novas e fecundas ideias não possam se desenvolver livremente.
Resumamos em poucas palavras a conclusão acerca do que foi dito. À medida em que, pela própria força das circunstâncias, sobrepõe-se à pesquisa e ao ensino o peso das estruturas administrativas e preocupações financeiras, e a pesada armadura de regulamentação e planejamento, torna-se mais indispensável do que nunca preservar-se a liberdade da pesquisa científica e a livre iniciativa de pesquisadores originais, porque estas sempre foram e sempre continuarão sendo as fontes mais férteis de grandes progressos na Ciência.

*Traduttore, traditore.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Teorias do Absurdo I

O fato de não haver, no plano do diálogo, o emprego da força bruta, não assegura a existência de um ambiente onde reine a razão e a justiça, de sorte a conferir-lhe as mesmas imperfeições e desmandos encontrados nas disputas selvagens e brutais da natureza; com a ressalva, entretanto, de não punir os participantes de tais embates com mutilações, ou até mesmo a morte, no caso de derrota. Ao menos não no sentido usual de tais desígnios.
No entanto, não posso dizer que é o ser humano incapaz de elaborar raciocínios e formar juízos guiado pura e simplesmente pela razão; muito embora, em alguns momentos de destempero, tenda a defender tal teoria. Em contra partida, não posso também ignorar o fato de que diversas vezes o mesmo ser humano utiliza-se da razão, i.e. de todo o seu maquinário intelectual, para justificar e defender posições no intuito único de respaldar comportamentos e atitudes absolutamente pueris, florescidas no âmago daquilo que, na falta de melhor designação, chamaria de dragões do egoísmo; seres que habitam uma região próxima à boca do estômago — como é bem sabido por todos aqueles que estudaram o célebre livro de H. Martin e R. Lindsay Anatomia Emocional — e de características bastante particulares: cegos e invisíveis, dotados de um humor imprevisível e de uma fúria implacável — como é também bem sabido pelo público estudioso do livro Seres que nos habitam e seus comportamentos do grande autor russo A. Romanov.
Tudo isso pra justificar minha teoria de que é sim possível perder uma discussão mesmo quando se tem total razão no ponto de vista defendido. Pois uma vez que o diálogo não garante um ambiente onde impere a justiça, há naturalmente um desequilíbrio de forças, que estabelece a noção de poder, seguido da disputa pela sua obtenção e controle. Como consequência imediata, temos o surgimento de seres mais poderosos em tal modalidade, que sem grandes dificuldades conseguem superar seus oponentes através de abusos permitidos pela posição privilegiada que ocupam. Dessa forma, mesmo defendendo ideais desprivilegiados dos pontos de vista racional e ético, obtêm sucesso em suas empresas através da desmoralização do oponente, que, por mais absurdo que pareça, sente-se em situação inferior, perdendo desta forma toda a confiança em seus próprios argumentos. E como bem sabemos — segundo o best-seller de G. Benjamin A origem das emoções; mapeando a mente e decifrando o comportamento humanoo homem sem confiança é a mais frágil das instituições.