domingo, 30 de maio de 2010

Teorias do Absurdo VIII

A razão é o grande engodo da humanidade; uma falácia; um grande sofisma. Tem a função única de respaldar os absurdos cometidos por nós seres humanos enquanto movidos única e exclusivamente pela emoção. E é isso! Se pouco tenho a falar sobre este tema é porque eu próprio não o compreendo, ao menos não da forma como gostaria.

E como gostaria eu de entendê-lo, pergunto-me? Quem quer entender, se não meu lado puramente racional? sou levado a questionar. Se é como digo, então temos um conflito estranho: ao buscar de forma estritamente racional uma coerência lógica em meu próprio comportamento racional começo a perceber que este em verdade é absurdo e totalmente incompatível com os dogmas assumidos como ponto de partida. Como se o modo racional de se pensar pusesse em xeque a própria razão enquanto forma de pensamento. Mas isto é o maior dos absurdos, e jamais, repito jamais, seria aceito como razoável por qualquer tipo de inteligência sob qualquer tipo de ponto de vista, e nisto incluo-me.

Mas não é isto a ilusão perfeita? questiono-me. Se acaso existisse um mecanismo perfeito capaz de iludir-nos completamente, então este não pareceria-se a nós exatamente como descrito acima? Se acaso a verdade, a real verdade, fosse absolutamente impossível de ser aceita como verdadeira pelo instrumento que define o que é verdade e nos auxilia a discerní-la então este não constituir-se-ia um engodo perfeito?

Céus! Como analisa-se o próprio instrumento de análise*? É isto possível? É isto relevante? Será que não provém desta questão toda a confusão e embaraço supracitados? Pode-se pôr a mente ela própria a serviço de auto investigar-se? Se sim gostaríamos que as conclusões de tal investigação continuassem coerentes com todo o resto de aplicações aparentemente tão bem sucedidas da mente, e não as contradissesse! Se não, enfim, para mim em particular seria uma grande frustração, além de uma tremenda deselegância por parte da natureza. Mas nesse caso então deveríamos interpretar a razão de que forma? Como um instrumento válido somente dentro de um certo domínio? Cujas aplicações devem restringir-se à um determinado conjunto de questões e jamais extrapolarem o limite destas?

Às vezes parece-me que a razão é meramente um instrumento evolutivo, cujo desenvolvimento dá-se somente como forma de melhor adaptar os seres humanos ao meio em que vivem e desta forma garantir a famigerada perpetuação da espécie. Assim, cru, sem grandes romances, como o faz uma grande presa em um carnívoro ou o veneno em um animal peçonhento; e somos nós, tolos, que fantasiamos todo o resto. Como se os conflitos existenciais causados em nós pela gênese da razão tivessem como único intuito impulsionar a raça humana em direção à evolução da espécie. Como se a natureza tivesse visto nisso uma grande oportunidade de dar sequência ao seu tão precioso projeto, que a nós tanto intriga e admira.

Tal pensamento reconforta-me por sua covardia. Pois não há na vida sensação melhor do que acovardar-se.

Assim sendo, a razão passaria a ter o mesmo status que um outro órgão qualquer, como os rins e o pâncreas por exemplo, e todos eles em conjunto teriam como objetivo única e exclusivamente manter-nos vivos assegurando com isso a preservação do indivíduo e consequentemente da espécie.

É, talvez seja isso mesmo. Pois a sede do saber jamais é satisfeita. As dúvidas só trazem mais dúvidas e parecem afastar cada vez mais pra longe as certezas tão sonhadas. Capaz que seja. Em verdade somos nós pura emoção e é por isso que ao darmos vazão à estas nos sentimos tão à vontade, pois estamos em contato direto com aquilo que nos é próprio e constituinte. A razão é a alienação da emoção, um órgão, um mecanismo, engendrado com intuito de suprimí-la e iludir-nos, de arrancar de nós esforços indevidamente empregados em um projeto maior que não nos pertence e que desconhecemos. Somos na verdade vítimas desse litígio e eternos combatentes nessa luta desmedida, onde, armados com a razão, lutamos por uma causa alheia acreditando lutar por objetivos da mais alta nobreza. É mesmo um grande sofisma, uma falácia, o maior dos engodos.


*Quis custodiet custodes ipsos?
(Quem vigiará os vigilantes?)

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Fragmentos

Uma lição não só para atores, e sim para todo e qualquer indivíduo cônscio da necessidade de se evitar uma vida efêmera. O texto a seguir reflete, na minha visão, a necessidade de se buscar o seu próprio caminho; de, respeitando as suas características pessoais e inalienáveis, encontrar a sua forma de realização, quer seja de uma cena, quer seja de qualquer outra empreitada que se dispuser a cometer na vida. Desta forma, sempre pautando suas ações em cima destes princípios, o indivíduo confere às últimas (as ações) conteúdo. Ele as preenche de significado, tornando-as, de certa forma, densas e robustas; e ao meu ver, ao fazê-lo, estas tornam-se especiais não somente sob o seu ponto de vista, mas adquirem um novo caráter, potencializado, capaz de transformar o meio na qual se inserem. Creio sobretudo, tratar-se de uma série de práticas que têm como objetivo garantir a harmonia entre o indivíduo e aquilo que este faz, além de configurarem-se, elas próprias, um valioso exercício de auto-conhecimento.

[...] Nunca se perca no palco. Atue sempre em sua própria pessoa, como artista. Nunca se pode fugir de si mesmo. O instante em que você se perde no palco marca o ponto em que deixa de verdadeiramente viver seu papel e o início de uma atuação exagerada, falsa. Assim, por mais que atue, por mais papéis que interprete, nunca conceda a si mesmo uma exceção à regra de usar sempre os próprios sentimentos. Quebrar essa regra é o mesmo que matar a pessoa que você estiver interpretando, pois a estará privando de uma alma humana, viva, palpitante, que é a verdadeira fonte da vida do papel. [...]

[...] Sempre e eternamente, quando estiver em cena, você terá de interpretar a si mesmo. Mas isto será numa variedade infinita de combinações de objetivos e circunstâncias dadas que você terá preparado para seu papel e que foram fundidos na fornalha da sua memória de emoções. É este o melhor e o único material verdadeiro para a criatividade interior. Utilize-o e não confie em nenhuma outra fonte para abastecer-se. [...]

Constantin Stanislavski em "A preparação do ator"