Acalma-te tu. Acalma-te tu que em breve tudo estará terminado. Muito em breve. Muito em breve para quem já suportou tanto tempo. Eu sei que o coração já não aguenta mais esperar, porque este é desprovido de razão, e a razão é realmente um mal necessário. A razão é um mal, sobretudo. É ela que corrompe o coração e o põe à serviço de interesses que este não tem; pois o coração é incapaz de ter interesses, não que seja puro, pois nem puro pode ser, somente não tem acesso à tais predicados, não é esta a sua função. Digamos simplesmente que por tais trilhos este não corre, tal como não podem os olhos escutar nem tampouco os ouvidos ver. E se é a nós difícil entender e fazer tal distinção, talvez o seja pelo fato de experimentarmos os sentidos todos misturados.
Mas de repente me ocorre que talvez não seja a razão um mal afinal. Talvez seja ela pura em essência assim como a emoção. Talvez esteja na interação de ambos a raiz do problema. Talvez quando postas juntas interajam de tal forma a dar origem à um terceiro objeto, fruto da interação, ou talvez à um único objeto, posto que agora não faz mais sentido falar de cada uma das partes separadamente. Talvez isso venha a corroborar a hipótese de que coisas distintas quando juntas não mais são somente elas superpostas. Talvez haja algo mais, talvez haja uma mudança de estado. Indo mais além podemos mesmo pensar que pode ser um erro dizer que um dado objeto, quando isolado, esteja em seu estado natural. Talvez seja injusto atribuir às características aferidas nesse particular estado, o caráter de próprias e absolutas de determinado objeto. Talvez esteja mesmo errada a concepção de ser em nossas mentes. Talvez esteja tudo errado, e mais ainda os juízos meus. Talvez por isso mesmo a filosofia não seja ciência e seja arte afinal. Pois aí afrouxam-se as críticas e o rigor, diminuem-se as expectativas e as cobranças, e têm-se a liberdade de dizer brincando aquilo que mais nos atormenta e faz sofrer. Talvez supramos a sede do saber com algo que não é propriamente uma resposta. E talvez nem nos demos conta disso. Talvez busquemos respostas simplesmente porque ao fim acabamos por satisfazer a necessidade que deu origem à tal busca, mas sem ao menos pararmos para averiguar se isso se deveu à uma resposta. Então talvez a concepção de resposta esteja errada. Ou então talvez não consigamos conceber de maneira clara que a compreensão que temos de questões quaisquer independe das palavras. Talvez não compreendamos de forma clara qual o papel da linguagem em nossas atividades intelectuais, qual a relação que esta desenvolve com a razão e a emoção.
Céus! Quanto mais rigor se tenta impor na análise de tais questões, mais a confusão se apodera de nossas mentes.
Aquele que não se permite errar não se permite andar. Aquele que persegue a perfeição de forma realmente decidida não chega a ponto algum. Deus permitiu-lhe ser, mas só. Se quiseres tentar, erras. Erras primeiro, pois desta feita mesmo que trabalhes arduamente para evoluir jamais alcançarás a perfeição.