terça-feira, 5 de maio de 2009

Ensaio primeiro

E que tipo de pessoas somos nós? Nós somos do tipo que sofre. Porque vivemos de nossas escolhas e por elas pagamos todos os dias. Mundo maldito que pôr sobre nossos ombros deposita o peso insuportável das escolhas, e a nós provê somente tolice, tolice! Copiosa tolice, foste tu que nos fizeste sofrer desde sempre, que nos iludiste e nos fizeste achar o hiato da dor um regalo da vida. Foste tu, que desde o início prendeste-nos à condição humana, que impediste-nos de atinar que a justiça existe, ao passo que o que inexiste são os justos. És tu, que ao menor sinal de lucidez anuvias nossas mentes, impedindo-nos de enxergar as verdades que tão somente conjeturamos. És tu que nos cerceias o engenho de menear os pensamentos pelos meandros da mente; és tu que nos fazes recair sobre juízos inacabados e absurdos, que nos fazes increr na possibilidade do acerto, que fazes da filosofia uma ciência vã. És tu, tolice, que infestas os incautos e atormentas sobremaneira os mais prudentes; que alimentas sonhos, que destróis vidas, que alivias as chagas dos tolos. És tu que não és própria à mim, que me divides e me intrigas, que me condenas e me redimes, que me persegues e que persistes. És tu, tão somente tolice.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Fragmentos

[...] Mas, afinal, quem era eu realmente? A essa pergunta quero responder com toda honestidade: eu era aquele que tinha muitas caras.
E o número delas ia aumentando. Mais ou menos um mês antes das férias, comecei a me aproximar de Marketa (ela estava no primeiro ano e eu no segundo) e fazia o possível para impressioná-la, da mesma maneira tola que os rapazes de vinte anos de todos os tempos: disfarçava-me com uma máscara; fingia ser mais velho (mentalmente e por minhas próprias experiências); fingia manter distância em relação a todas as coisas, observar o mundo do alto e vestir por cima da minha pele uma segunda epiderme, invisível e à prova de balas. Desconfiava (aliás com razão) que a brincadeira exprime claramente a distância, e, se sempre gostei de brincar, com Marketa eu o fazia de maneira especialmente cuidadosa, artificial e afetada.
Mas que eu era de fato? Sou obrigado a repetir: eu era aquele que tinha muitas caras.
Durante as reuniões, era sério, entusiasta e convicto; desenvolto e brincalhão em companhia dos colegas; elaboradamente cínico e sofisticado com Marketa; e, quando estava só (quando pensava em Marketa), era humilde e encabulado como um colegial.
Essa última cara seria a verdadeira?
Não. Todas eram verdadeiras: eu não tinha, a exemplo dos hipócritas, uma cara autêntica e outras falsas. Tinha muitas caras porque era moço e porque não sabia eu mesmo quem era e quem queria ser. (No entanto, a desproporção existente entre todas essas caras me dava medo; a nenhuma delas eu aderia por completo, e por trás delas evoluía, desajeitado, às cegas.) [...]

[...] Meu comandante me parecia simplesmente um rato vingativo e dissimulado. Eu o vejo hoje sobretudo como um homem que era jovem e que representava um papel. Afinal, se os jovens representam, não é culpa deles; inacabados, a vida os coloca num mundo acabado, no qual se exige que eles se comportem como homens feitos. Eles se apressam consequentemente, em se apropriar de formas e de modelos, aqueles que estão em voga, que combinam com eles, que lhes agradam - e representam um papel.
Nosso comandante também era inacabado e uma bela manhã se viu frente a nossa tropa, perfeitamente incapaz de compreendê-la; mas tinha conseguido sair-se bem, pois aquilo que lera e ouvira oferecia-lhe uma máscara perfeita para situações análogas: o herói implacável das histórias em quadrinhos, o jovem macho com nervos de aço dominando um bando de bandidos, nada de grandes conversas, apenas a cabeça fria, um humor despojado que acerta bem no alvo, a confiança em si e no vigor de seus músculos. Quanto mais consciência tinha de seu aspecto de garoto, mais fanatismo ele punha no seu papel de super-homem.
Mas era a primeira vez que eu encontrava um jovem ator como aquele? Na época do meu interrogatório na secretaria do Partido sobre o cartão-postal, eu tinha pouco mais de vinte anos e meus interrogadores tinham apenas um ou dois ano mais. Eles também eram, antes de mais nada, garotos escondendo seus rostos inacabados atrás da máscara que consideravam a melhor de todas: a do revolucionário ascético e inflexível. E Marketa? Não teria ela escolhido representar a salvadora, papel aliás repetido num insípido filme da temporada? E Zemanek, subitamente tomado pela exaltação patética da moral? Não seria isso representar um papel? E eu? Será que eu não estava representando muitos papéis? Em confusão, corria de um papel a outro até o momento em que, embaraçado, fui apanhado.
A mocidade é horrível: é um palco em que, representando tragédias com as roupas mais variadas, crianças se agitam e proferem fórmulas decoradas que compreenderam pela metade e às quais se agarram fanaticamente. A História também é horrível: serve muitas vezes de palco de exibição para os imaturos; palco de exibição para um jovem Nero, para um jovem Bonaparte, para as multidões de crianças eletrizadas, cujas paixões imitadas e cujos papéis simplistas se transfiguram numa realidade catastroficamente real. [...]

Milan Kundera em "A Brincadeira"

sábado, 2 de maio de 2009

Fragmentos

[...] Tais cavalheiros oniscientes são encontrados muitas vezes em uma certa camada da sociedade. Sabem tudo. Tanto a sua insaciável curiosidade como as suas aptidões de espírito inclinam-se irresistivelmente em uma direção, sem dúvida por falta de idéias e de interesses mais importantes na vida, como diria um pensador moderno. Mas as palavras "eles sabem de tudo" devem ser tomadas aqui em um sentido quiçá limitado: em que departamento fulano trabalha; que espécie de amigos tem; quais os seus proventos; onde foi governador; quem é sua mulher e que dote lhe trouxe; quais são os seus primos de primeiro grau; quais os de segundo; e outras coisas deste jaez. A maioria de tais cavalheiros oniscientes vive com as mangas coçadas nos cotovelos e recebe um ordenado de dezessete rublos por mês. As pessoas de cujas vida eles conhecem todos os pormenores ficariam perplexas se lhes fosse dado imaginar suas intenções, mas muitos desses cavalheiros arrancam de tais conhecimentos uma consoloção sobremaneira positiva, o que importa em uma ciência completa, disso derivando um auto-respeito e o mais alto prazer espiritual. Não se pode negar que se trata de uma fascinante ciência. Farto estou de haver visto homens cultos, literatos, poetas, políticos que procuraram e acharam nessa ciência o seu mais elevado conforto e sua última finalidade, apenas tendo conseguido fazer carreira mediante emprego de tais dons. [...]

Fiódor Dostoiévski em "O Idiota"