terça-feira, 23 de março de 2010

Teorias do Absurdo V

Em um mundo doente virtudes são fraquezas. E antes que reclamem apresso-me em dizer: não tomo aqui a definição usual para o verbo ser, pois de fato creio que esta é — não incompleta — mas inadequada, e justifico a seguir.

O estado das coisas não me parece ser absoluto, mas dependente da forma como estas interagem com o meio ao seu redor. O estado das coisas, por consequência, depende do interagente, pois a natureza da interação só pode depender da natureza dos objetos envolvidos. Logo, o ato de aferir não é a simples constatação de uma verdade universal e absoluta, independente do ponto de vista e alheia à tudo que a cerca. O ato de aferir é ele próprio criador da realidade mensurada. A defesa, portanto, de que virtudes são fraquezas — ou não — não pode independer, ou não pode estar alheia, ao contexto da análise. Não podemos atribuir às virtudes o status de fraqueza, ou de qualquer outra predicação, como se isso fosse intrínseco ao objeto analisado; como se esta fosse uma característica que o objeto carrega sempre consigo — e a apresenta quando solicitado — independentemente de qualquer fator exterior. O objeto não possui propriedade sobre suas características, estas são na verdade resultado de inferências realizadas por outrem acerca de seu estado, e sob tais condições devem ser entendidas. Desta forma, o conjunto de atributos que caracteriza um determinado objeto pode variar de acordo com as circunstâncias externas, tornando-se admissível que objetos sejam coisas diferentes — até mesmo antagônicas — sem que firamos nenhum postulado lógico, possibilitando assim a conciliação entre a ideia de paradoxo, tão recorrente no pensamento humano, e as diretrizes fundamentais daquilo que guia o raciocínio lógico, cuja infringência tanto nos assoma.

Devo ainda dizer que nada é antes que tenha sido experimentado, daí o compromisso tão grande que há entre a realidade e a experimentação. A experimentação não é a simples constatação da realidade, é a própria criação da realidade. E mesmo que possa parecer ultrajante, o argumento escora-se na má definição de realidade. Vale à pena questionar-se: afinal o que é a realidade? É esta o conjunto de verdades universais e absolutas capazes de descrever o mundo ao nosso redor? A existência da realidade independe da experimentação, i.e. está lá a realidade construída esperando que a observemos? Creio, sinceramente, que não. E creio que venha dessa visão supracitada os mal-entendidos, as incoerência e as conclusões imprecisas surgidas ao analisar-se questões como a discutida no parágrafo anterior em detalhes. Creio que aquele que diz «Não, as virtudes não podem, jamais, ser fraquezas» baseia-se exclusivamente em observações obtidas em uma análise do objeto (as virtudes), quando de sua inserção em outro contexto que não o citado inicialmente; e, guiado por uma visão tradicionalista, conclui que as características aferidas nesse contexto em particular devem ser as características naturais e intrínsecas ao objeto, e isso por si só bastaria para contradizer a afirmação primeira, pois não poderia, a princípio, o objeto ser algo e também sua negação. É exatamente nesse ponto que devo reforçar meu argumento: sim, o objeto pode ser algo e também a sua negação, pois o conceito de ser é estabelecido de tal forma a comportar tal paradoxo. O conceito de ser é estabelecido à partir da experimentação e o resultado da experimentação não é unívoco, mas dependente do meio que o cerca, dependente do interagente. Dessa forma, o mesmo objeto pode apresentar características diferentes dependendo do interagente com o qual interage, ou dos interagentes, que coletivamente podemos chamar de meio exterior; quando questionado acerca de uma mesma questão, i.e. quando mensurada uma mesma grandeza sua.

O texto acima representa uma série de esforços meus para transcrever em palavras ideias compeendidas pela minha mente em forma de sentimentos. Devo enfatizar que apesar dos esforços, certa dose de insucesso é inevitável nesse processo de transcrição. Portanto, certa dose de perdão faz-se imprescindível na interpretação rigorosa das ideias transcritas; na lógica que as concatena e em seus desdobramentos. Eu mesmo devo assumir que minhas próprias ideias sob representação escrita desagradam-me na maior parte das vezes; pois as conheço profundamente, ainda que sob outra representação, e sei exatamente a signatura que deixam em minha mente. Entretanto, de raro em raro encanto-me ao relê-las, pela surpresa de conseguir reconhecê-las empedernidas sob a forma de palavras; de reconhecer que aquelas palavras conseguiram reproduzir em mim, de alguma forma, a signatura tão característica das minhas ideias primitivas sob forma de sentimento, e que, portanto, há uma correspondência fidedigna entre ambas representações. Na minha concepção, tal fato é, sem dúvida, digno de admiração; e constitue pois uma arte. Sob o status de arte, as incoerências lógicas, os "cantos vivos" da teoria são suavizados e esta pode ser interpretada sob uma ótica que permita a apreciação de seus pontos fortes, que devo salientar existem; e existem única e exclusivamente em um ambiente como este, o único que apresenta as condições necessárias para seu surgimento e exercício.

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