sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Ensaio décimo primeiro

E esta é a história de Jerônimo; e é assim que ela começa: de uma ideia, brilhante ideia, mas tão simples, tão óbvia que surpreende-me que ninguém antes de Jerônimo tenha tentado levá-la a cabo. Se bem que analisando friamente deve-se obrigatoriamente reconhecer que "levá-la a cabo" não seria nada fácil, ao contrário, só de pensar vê-se que essa seria uma empresa somente para homens verdadeiramente obstinados; obstinados como Jerônimo. E é isso. Essa é a razão pela qual dispus-me a aqui descrever a história de Jerônimo: ele teve uma ideia! E a partir desta ideia construiu ele mesmo sua história, uma história tão fascinante que é mister contá-la, pois é isso que pede-se aos contadores de história, que em face de uma história fascinante a conte, a transmita aos outros e não a deixe morrer prematuramente, e em contrapartida, é isso que pede-se às histórias, que sejam fascinantes, que obriguem os contadores de história a — uma vez tendo tomado seu conhecimento — contá-las. E o que torna essa história, a história de Jerônimo, fascinante? Como adiantado, é sua ideia; sim, mas que ideia é esta? Digo a vós, então, sem mais rodeios, sem grandes floreios, pois não me são estes próprios, eu que não sou um Cervantes, Victor Hugo ou Dostoiévski, eu que sou — assumo — pobre no estilo e na retórica e pouco ilustrado no vernáculo. Jerônimo decidiu virar Papa. Sim, Papa! E por que razão? Aí está a genialidade de Jerônimo: porque descobriu-se ateu. Jerônimo foi mesmo um gênio. Quando muitos, ao descobrirem-se ateus, ou converterem-se ao ateísmo — peço aqui desculpas ao leitor pois de fato não sei ao certo que verbo empregar, não sei como se torna ateu, se por revelação, se por pura teimosia ou se por decisão deliberada, sei somente que no caso de Jerônimo, Jerônimo descobriu-se ateu, e era assim que gostava de dizer —, desejaram afastar-se o mais que podiam da Igreja e de suas doutrinas, Jerônimo desejou o contrário: ir ao seu encontro, penetrar-lhe as raízes, as entranhas, atingir seu âmago e conquistar seu posto mais alto: Sua Santidade. O plano era simples, pueril, pode-se mesmo dizer. "Torno-me Papa e proclamo-me ateu. Pronto! Que será da Igreja Católica se tiver um Papa ateu? Ruirá desgraçadamente, e a mim caberá somente assistir ao seu ocaso lá do alto." — pensava Jerônimo. No entanto, quem em sã consciência acreditaria que alguém seria capaz de executar uma ideia assim tão mirabolante? De dedicar esforços tão grandes e anos, vários anos, de sua vida a um empreendimento assim tão incerto e concebido de maneira tão impulsiva? Não obstante, quem, desses, não coçaria-se de curiosidade para ouvir a história de um sujeito que dizem ter feito tudo isso? Quem não deixaria-se encantar com a loucura de Jerônimo? Tal é a razão pela qual — reitero — sou obrigado a contar essa peripécia; tal é a razão pela qual sou compelido agora a retornar a Jerônimo e a sua infância.

CONTINUA...

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Fragmentos

No começo do ano tive que ler Descartes — Meditações Metafísicas — e Leibniz — Discurso de Metafísica — na faculdade e foi um pouco estranho. Acho que até agora não sei ao certo definir o que penso e sinto a respeito desses textos que li e das ideias que esses dois impressionantes autores neles apresentam. A princípio me chamou muito a atenção o fato de ambos darem tanta importância à questão de Deus; de sua existência, de sua caracterização, de sua relação com a natureza e com a vida dos homens. Não que eu não soubesse que esses autores, assim como outros de suas épocas, versassem sobre esses assuntos e pensasse somente que tinham inventado um a geometria analítica e o outro o cálculo diferencial. Mais ainda assim, tendo eu total desconhecimento do teor desses trabalhos, me foi um pouco estranho ter contato com esse "lado B" de Descartes e Leibniz. Quero dizer, estes senhores não eram padres, teólogos, ou algo do gênero; estes senhores eram simplesmente a "linha de frente" da ciência em suas respectivas épocas. 
Descartes, como eu já disse, inventou a geometria analítica. O que isso quer dizer? Quer dizer que ele algebrizou a geometria; que ele pegou tudo aquilo que era alvo de estudo desde Euclides e pôs sob uma nova e revolucionária representação; que ele pegou por exemplo um círculo, que era até então uma figura, uma imagem se preferirem, e transformou nisto: x2+y2=r2, em uma equação algébrica. Posto assim pode parecer simplório, mas as consequências que essa nova representação trouxe para a matemática, a física e para a humanidade em geral foram grandiosas. Com o advento da geometria analítica Descartes, pode-se mesmo dizer, geometrizou por fim a física, isto é, os corpos que ela estudava e o espaço no qual estavam imersos. Isto para nós parece uma trivialidade, a ponto de ao me deparar pela primeira vez com essa afirmação, de que "Descartes geometrizou a física", achá-la sem sentido. Ora, isso se justifica pelo fato de que para nós, herdeiros da ciência moderna, não faz sentido algum uma física desgeometrizada; tudo aquilo que entendemos por física se escora, em última instância, na representação geométrica de seus entes em linguagem matemática. Talvez só recentemente, com o advento da mecânica quântica, essa representação geometrizada da natureza tenha vindo a sofrer alguma ruptura, mas essa é uma suposição da qual não estou muito certo e que mereceria uma discussão mais detida em outro momento e em outro lugar.
Leibniz, por sua vez, não ficou atrás; juntamente (ou paralelamente) a Newton inventou o cálculo infinitesimal, que finalmente possibilitou ao homem tratar de maneira coerente o movimento de partículas sobre trajetórias arbitrárias, e a finalmente estabelecer de maneira precisa a relação guardada entre posição e velocidade como taxa de variação da posição com o tempo, e entre velocidade e aceleração como taxa de variação da velocidade com o tempo. Essas ideias estão na base da mecânica newtoniana, que foi, ouso dizer, a coisa mais revolucionária que a humanidade já viu nascer, não tanto por seu conteúdo, embora este por si só fosse forte candidato ao posto, mas principalmente pelo amplo e aparentemente infindável horizonte de novas aplicações e desenvolvimentos que possibilitou, que ao meu ver, reforçando o que disse acima, não encontra paralelo com nada produzido pelo intelecto humano.
Pois bem, não obstante essa curta digressão enaltecendo esses, sem dúvida, gênios do pensamento moderno ocidental, devo agora retornar ao raciocínio inicial e articulá-lo a essa singela exposição das conquistas que Descartes e Leibniz trouxeram para a Física e a Matemática. Não por coincidência, os dois textos que citei de início trazem consigo o termo Metafísica no título. "Metafísica" no grego quer dizer literalmente "além da física", e desde a Antiquidade intitula uma das áreas de estudo mais emblemáticas da Filosofia. Ao longo do tempo o termo foi agregando diferentes nuanças de significado e até mesmo redefinições de sentido de acordo com o emprego que determinados filósofos ou correntes filosóficas fizeram da palavra. No entanto, apesar dos diferentes perímetros abarcados pela metafísica em cada um dos diferentes contextos, em cada um dos diferentes autores nos quais foi explorada, pode-se dizer que há um lugar comum a todas elas, e que esse lugar comum certamente escapa, extrapola os domínios da física, qualquer que seja a época considerada. No caso de Leibniz e Descartes não foi diferente. Ambos, em concomitância com seus trabalhos em Física e Matemática, e fundamentando esses últimos, desenvolveram sua própria Metafísica, que a exemplo de sua Física e Matemática era absolutamente extraordinária e ambiciosa. O alcance que esses autores pretendiam dar à razão humana através de suas teses metafísicas, se não beirava o infinito, ao menos expandia imensamente as fronteiras do saber lançando luzes sobre uma área gigantesca do conhecimento que se mantinha outrora velada pelas trevas da ignorância. Para se ter uma noção do tamanho desses empreendimentos e da profundidade de significado que carregavam basta dizer que o que pretende Descartes em suas Meditações é nada mais nada menos que provar a existência de Deus como se fora um teorema da geometria, isto é, de forma a não restar dúvida alguma, não só no que diz respeito a sua existência, mas também no que diz respeito a sua correta caracterização. E o faz; de maneira crível para ele, devo acreditar; mas de maneira risível, até, para nós, conhecedores dos demais capítulos dessa história e esclarecidos nos assuntos que vieram a suceder os pensamentos cartesiano e leibniziano. Quero dizer, duvido muito que alguém nos dias de hoje, minimamente instruído, encare realmente as "provas" que Descartes dá da existência de Deus como provas verdadeiras, isto é, no sentido em que elas são encaradas nas ciências atuais, sobretudo na Física, que desde os últimos séculos apresentou-se como carro-chefe das ciências naturais. Um cientista contemporâneo, se vencesse o preconceito inicial e se dispusesse a ler de maneira detida as Meditações, iria sentir, já na primeira prova da existência de Deus apresentada por Descartes — a consagrada "prova pelos efeitos" — uma estranheza na definição pouco precisa, ou pouco objetiva, que ele faz dos conceitos fundamentais utilizados na demonstração. Embora não venha ao caso entrar aqui em detalhes sobre essa questão, parece-me que essa estranheza nasce da comparação, até mesmo inconsciente, forçada pelo costume, da grandeza que ele define como "realidade" de uma causa ou de um efeito, com qualquer uma das grandezas físicas que encontramos nas ciências atuais. O que me salta aos olhos, que falta à primeira e encontra-se nas segundas, é a mensurabilidade de tais grandezas. O que quer dizer a "realidade" de um objeto do ponto de vista experimental? Pois esta parece-me a objeção central que a ciência contemporânea deveria fazer à prova de Descartes, quero dizer, é por isso que levamos a sério a ciência que fazemos, pois nela todas as grandezas definidas, por exemplo: carga elétrica, massa, energia, etc., são passíveis de medição laboratorial, e é através do resultado dessas medições comparado com as previsões numéricas fornecidas pelo modelo teórico que descartamos ou validamos determinada tese. Dando sequência a esse raciocínio, parece-me que a estranheza que senti ao ler esses textos citados e que mencionei no início deste texto, me foi provocada por um espírito cientificista no qual a verificação empírica desempenha um papel fundamental na determinação das verdades acerca da natureza, verificação empírica esta que não se encontra, de maneira alguma, nas investigações metafísicas de Descartes e Leibniz.
E é aqui então que devo introduzir o assunto principal deste texto e que me motivou a escrevê-lo. Trata-se do seguinte fragmento do filósofo escocês David Hume, retirado de sua obra intitulada Investigação sobre o entendimento humano. A filosofia de Hume, frequentemente classificada como empirista ao lado da dos também britânicos John Locke e George Berkeley, em boa medida confronta a metafísica excessivamente abstrusa — para usar um termo do próprio autor — desenvolvida durante o século XVII, sobretudo a metafísica cartesiana. Já no início desta sua Investigação Hume faz uma bipartição entre os diferentes tipos de filosofia existentes e descrimina em cada caso os objetivos principais da cada uma delas. Há então uma filosofia simples e acessível, que vê o homem, sobretudo, como um ser nascido para a ação e que visa, portanto, exaltar a virtude e despertá-la em nossos corações. Por outro lado há uma filosofia mais abstrata e recôndita, que vê o homem agora como um ser preponderantemente racional, e que visa, em virtude dessa racionalidade, obter princípios mais gerais capazes de reger o funcionamento de todo o universo. O que Hume buscará ao longo da obra, e com a obra, é estabelecer os limites do entendimento humano, e isso, em alguns momentos, irá conflitar com o alcance pretendido pelo tipo de filosofia abstrusa desenvolvida por exemplo por Leibniz e Descartes. No entanto, é mister que se diga, Hume não acredita que esse segundo tipo de filosofia seja de todo errado; dá a entender que há algo de valioso nessa forma de pensamento, mas que certamente exageros podem ser cometidos, e provavelmente foram, de tal forma que uma filosofia fruto desses exageros apresenta, inevitavelmente, erros e inconsistências. Hume dá a entender também que uma filosofia mais adequada deve necessariamente balancear esses dois tipos de filosofia apresentados acima, o que nos leva, portanto, a pensar que a filosofia por ele apresentada deve ser dessa particular forma.
Neste momento nada mais devo fazer do que não mais alongar-me e logo introduzir o trecho prometido, que em cotejo com esse longuíssimo prolegômeno que escrevi acima apresentará um contraste interessante, ressaltando sua bela escrita e esplêndida clareza de raciocínio. Ei-lo aqui:
"6. O homem é um ser racional e, como tal, recebe da ciência adequado alimento e nutrição. Mas são tão estreitos os limites do entendimento humano que pouca satisfação pode ser esperada neste aspecto, tanto quanto à extensão como à segurança das suas aquisições. O homem é um ser sociável, não menos do que um ser racional, mas nem sempre tem ocasião para dispor de companhia agradável e divertida, ou continuar a sentir por ela a atracção adequada. O homem também é um ser activo, e é obrigado por essa inclinação, assim como pelas variadas necessidades da vida humana, a dedicar-se a ocupações e negócios; mas o espírito precisa de algum descanso e não pode estar sempre pronto a seguir sua tendência para o trabalho e a diligência. Parece, então, que a natureza indicou um tipo de vida mista como o mais adequado para a raça humana, secretamente advertindo-a de que não deve permitir que qualquer dessas inclinações se imponha excessivamente, a ponto de nos incapacitar para outras ocupações e entretenimentos. Satisfaz a tua paixão pela ciência, diz ela, mas que a tua ciência seja humana, com directa referência à acção e à sociedade. Proibo-te o pensamento abstruso e as investigações recônditas, os quais castigarei severamente com a pensativa melancolia que produzem, com a infindável incerteza em que te envolvem e com a fria recepção que as tuas pretensas descobertas irão receber quando comunicadas. Sê um filósofo; mas, em meio a toda a tua filosofia, não deixes de ser um homem [grifo meu].
[...] O caminho mais agradável e pacífico na vida é aquele que segue pelas avenidas da ciência e do saber, e todo aquele que for capaz de remover algum obstáculo nesse caminho, ou descortinar novas perspectivas, deve, nessa medida, ser considerado um benfeitor da humanidade. E embora essas investigações possam parecer penosas e fatigantes, ocorre com alguns espíritos o mesmo que com alguns corpos, os quais, sendo dotados de uma saúde vigorosa e florescente, precisam de severo exercício e colhem prazer daquilo que para a humanidade em geral aparece como pesado e laborioso. De facto, a obscuridade é tão dolorosa para a mente como para a vista, mas obter luz a partir da obscuridade, seja qual for o esforço, será necessariamente motivo de júbilo e deleite.
11. Mas aquilo que se objecta à obscuridade da filosofia profunda e abstracta não é simplesmente que seja penosa e fatigante, mas que seja uma fonte inevitável de erros e incertezas. Aqui, de facto, assenta a objecção mais justa e plausível a uma parte considerável da metafísica, que ela não é propriamente uma ciência, mas ou deriva dos esforços infrutíferos da vaidade humana, que gostaria de penetrar em assuntos completamente inacessíveis ao entendimento, ou da astúcia das superstições populares que, sendo incapazes de se defenderem em campo aberto, cultivam todos esses espinhos emaranhados para esconder e proteger suas fraquezas. Expulsos do campo aberto, esses salteadores fogem para a floresta e ficam à espera de uma oportunidade para invadir qualquer avenida desprotegida do espírito, para o subjugarem com temores e preconceitos religiosos. Mesmo o mais forte antagonista será oprimido, se afrouxar a sua vigilância por um só momento. E há muitos que, por cobardia ou loucura, abrem de bom grado os portões aos inimigos, recebendo-os, com reverência e submissão, como se fossem os seus legítimos soberanos."

HUME, David. Investigação sobre o entendimento humano. In: Tratados Filosóficos I. Tradução de João Paulo Monteiro. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2002. pp. 26-8.

sábado, 9 de julho de 2011

Tratado de Teologia Ateísta

É com enorme felicidade que anuncio ter chegado ao fim de meu monumental Tratado de Teologia Ateísta, no qual discuto de maneira pormenorizada os principais ditames que norteiam as crenças dessa — ainda pouco difundida — religião. Com lançamento previsto para o dia 25 de dezembro deste ano (2011) pela Editora Boatos, a obra procura preencher um vazio existente na literatura especializada sobre esse tema em língua portuguesa. De grande utilidade não somente para pesquisadores das mais variadas áreas do conhecimento humano — Teologia, Filosofia, Astrologia e Macumba — como também para o público em geral, creio que este Tratado se coloca como uma tentativa de lançar novas luzes sobre uma discussão das mais profícuas e atuais que o mundo contemporâneo, tão fortemente marcado pelo retorno do Teológico-Político, pode realizar.

A seguir, de maneira nunca antes vista na história da publicação editorial, disponibilizo na íntegra o texto que compõe esta obra tão ansiosamente aguardada por público e crítica, esperando que ela possa tanto auxiliá-los na compreensão deste tão formidável assunto, quanto, em contrapartida, suscitar nos mais variados leitores uma reflexão lúcida e renovada acerca da questão da fé enquanto símbolo representativo de valores cuja não-observância acarreta, de maneira inelutável, uma concomitância unívoca passível de relativização sob a luz de um pós-modernismo dicotômico em torno dos pólos ontológico-epistemológico da questão do ser enquanto representação, em si e para si, da substância pensante sob um fundo psicológico negativo resultado da estruturação social a que é submetida, em seu sentido lato, é claro.

São Paulo, 09 de julho de 2011
Matheus Ichimaru

Capítulo 1 - Da existência de Deus

Deus não existe.

































quarta-feira, 18 de maio de 2011

Ensaio décimo

Ia sentar-me para escrever sobre um assunto que, francamente, já não me lembro. Bastou sentar, pegar o lápis e o papel para o pensamento anuviar-se, este mesmo que há bem pouco me era claro e promissor. Mediante tal empecilho, advieram as seguintes linhas.

Já cedo te escondestes? Apareças! pensamento, que é teu senhor quem te ordena. E se peço a ti que te reveles, que das brumas já te esvaias, é porque notei-te ainda pouco, não furtivo e sorrateiro, mas altivo e vigoroso.
Não me enganas não, a mim; se não te acho te procuro, e hei de acharte! o quão me tarde, pois és-te a mim caro, oh! miserável, e em mim resides, tu não me escapas!
Já não me lembro, é bem verdade, de como eram tuas nuances. Que cheiro tinhas, que rosto usavas, que impressões em mim causavas. Ao procurar-te tenho a impressão de que minha mente vem socorrer-te, presta-te auxílio, a ti, dolo a mim, pobre doente. A fuga tua a acobertar, apresentando-me outros artigos, uns bem bonzinhos, jamais fiéis à tua fôrma que te fizestes.

Vejam: e o que era prosa virou poesia, das mais ruins, se me permitem. Pois eu então irei cantá-la, já que tu fê-la presente. Sim, pois fostes tu que a criastes, guiando-me por tais correntes. Oh! pensamento, tu és demônio, és tu que animas todas as gentes. Ao menos deixais de lado, eu vos suplico, a tosca rima, melifluente. Se não sois vós torno a tu, que é pouco austero e mais prudente.

Já pouco importa do estilo e do final. Do primeiro se é poesia, ainda que pobre, humildezinha; ou prosa densa, articulada e arquitetada, como os engenhos da humanidade. Do final, pois é-me fácil, a mim, de antever o que se passa e se dará. Já deu-se, já, e é bem sabido: vencido fui, vencido estou, vencido sou. O bandido escapou-me, e fiquei eu de mãos à toa. E o que me resta? Questionará aquele que está, e sempre está, um passo à frente, antecipado e antecipando, sempre de chofre, sempre na sombra, a tatear fora das luzes, o vanguardista do pensamento. Restar-me-á, redarguirei, o que restou, o que me resta, o que me presta. Seguir tentando é meu destino, e cá pra nós, quase em sigilo, é meu prazer, gozo divino.

E tu não findas! oh mal-amado, cansado estou e não mais te aguento. Largar-te-ei; te falta brilho; sou eu teimoso, e, se me fosse dado, ao infinito polir-te-ia. Mas entre aqui e o infinito, fico aqui, que é bem mais perto. O infinito, deixá-lo-ei, para outra hora, para outros versos.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Ensaio oitavo

O homem passou em frente ao cemitério e viu, escrito no muro, os seguintes dizeres:

Aqui dentro não há homens maus; não por não serem maus, mas por não mais haverem.

Por alguma razão isto o marcou profundamente, e depois desse ocorrido pode-se mesmo dizer que o homem não foi mais o mesmo.

Mas que besteira! Nunca somos "mais os mesmos", independentemente do que nos aconteça. Não importa o que se passe, desde que se passe; é isso que faz a diferença. A história do universo não seria a mesma se alterássemos algumas bobagens no passado, por mais insignificantes que fossem. E por isso mesmo até o termo "insignificante" estaria mal empregado, e deveríamos pois repensá-lo com cuidado.

Outra besteira, maior ainda que a primeira. Tu és mesmo um campeão em erros de juízo, e comete-os amiúde. Que nunca somos "mais os mesmos" hei eu de concordar. Mas que "não importa o que se passe, desde que se passe" é uma das maiores besteiras que já ouvi em toda minha vida. E o que fazer com o conteúdo? Apenas abandoná-lo como se este fosse supérfluo e insignificante? Ignorá-lo de forma deliberada? Seria como dizer que as cores e suas diferentes tonalidades não importam nada à visão, que a esta bastam as formas e os contornos. Seria um aviltamento não somente aos objetos e ao mundo que nos rodeia, mas sobretudo à nossa própria subjetividade enquanto juíza de valores. Parvo! É isso que tu és: um parvo.

E quanto ao termo "insignificante" nada temos que repensar no que diz respeito à sua acepção. A palavra quer dizer exatamente o que deve dizer e sua função é indispensável na nossa língua, pois representa uma ideia que é absolutamente fundamental que é a ideia de insignificância assim como a compreendemos. O problema, se encontra no fato de questionarmos se há ou não realmente no mundo coisas insignificantes, no sentido literal da palavra. É uma questão restrita ao empirismo! E mesmo que não haja, mesmo que se verifique que no fundo no fundo tudo no universo é significante, isso de forma nenhuma descredenciaria a insignificância enquanto ideia, enquanto ideal, da mesma forma que não eliminamos os dragões de nosso vocabulário pelo simples fato de não existirem de verdade.

Mas esta agora? Será possível? Será mesmo possível que tenhas invocado até mesmo dragões só para contrariar-me? Logo a mim, que sou tu. Quanta apelação! E me julgas, me condenas, me chamas por parvo mas nem ao menos dá-se conta que cometes tu também um erro de juízo. Jamais disse que deveríamos repensar o conceito imbuído em "insignificante"; fiz críticas relativas somente ao seu emprego, e isso quer dizer, necessariamente, críticas aos empregadores, que somos todos nós, incapazes de observar com acuidade que na verdade há sim significância por trás daquilo que outrora julgamos insignificante; e em momento nenhum fiz alusão alguma à possibilidade de haver ou deixar de haver insignificância nos objetos do mundo, embora concorde com a hipótese que levantastes de que é esse um problema que concerne ao empirismo e que dispensa, portanto, qualquer especulação do ponto de vista teórico. Portanto, meu caro, deverias te envergonhar profundamente pois não fostes nem ao menos digno de corrigir um parvo como eu corretamente. Se sou eu um parvo, e assumo que sou, tu o és em dobro!

O que? Que foi? Mas...não, espera! Não, não chores. Por Deus! sei bem que às vezes me falta melindre na forma como explano-te os pensamentos, mas te assevero que se há uma razão para tal é porque te amo e te conheço profundamente. Costumamos perder a delicadeza frente às pessoas que mais amamos, sei que parece estranho, não me orgulha nem um pouco dizer isso, mas é como se dá. Não há razão para amuar-se assim, venha, tome este lenço, seca-te.

Me desculpas, por favor. Tens razão, sou mesmo um parvo.

Não, não te culpes assim.

Não, sou sim. Sou um parvo porque quis eu ter razão, e isso é egoísmo. E o egoísmo é sim condenável.

Nesse sentido sou eu também culpado, porque quis também ter razão e fui pois egoísta. Ambos fomos, é a bem da verdade, ambos fomos. Venha, esqueçamos por hora esse assunto, esqueçamos.

Tens razão, esqueçamos. Espera! Mas e a história do homem, que leu os dizeres no muro, que suscitou toda essa discussão. O que deu-se com ele?

Ah isto? É insignificante.

sábado, 23 de outubro de 2010

Ensaio sétimo

"O viajante talvez estivesse preparado para tudo, menos para o nada."

E de repente, não mais que de repente, nosso viajante se depara com um hiato. Um profundo, longo e insuportável hiato. Uma pausa, abrupta, um quase que desligamento do mundo ao seu redor. Sente-se como que flutuando em um meio etéreo, como a poeira a dançar no ar parado, dessas que se vê iluminada de viés.

Período fértil para a reflexão introspectiva; péssimo para a ação objetiva.

E no entanto, ah no entanto! o mundo, as circunstâncias, o famigerado acaso (cão sem dono, réu confesso de todos os crimes sem culpados) cobram-lhe posturas e ações imediatas. Cobram dele, de nosso viajante solitário, esforços de alguém que tem os pés cravados no concreto.

Mas como andar se já não há mais chão?

Ele se esforça, nosso viajante. Contorce-se todo a procura de uma alavanca, de um impulsozinho que seja para que consiga tomar controle da rota que se segue. Mas seus esforços parecem ser em vão. E como está cansado! Céus, está cansado, cansadíssimo mesmo. A própria ideia de fazer esforços já lhe doi na carne como o próprio esforço.

Há ainda mais uma coisa em sua mente que o atormenta: por um lado, nunca antes em toda sua caminhada, estivera tão cansado e tão desejoso de fazer o tempo parar. De pará-lo ao seu prazer para descansar inadvertidamente. Está mesmo cansado de carregar seu fardo, já houve momentos antes em que a vontade de livrar-se de seus encargos atingiu limites lancinantes. Mas nada se comparado a agora. Nada se comparado à repulsa que seu próprio corpo e mente, em conjunto (quase que em complô!), sentem ao serem cobrados, intimados a agir ações que não desejam, que lhes são, propriamente ditas, alheias.

Por outro lado lhe é claro, que nunca antes em toda sua caminhada estivera tão próximo do fim quanto agora, e dependente, tão somente, de suas forças para concluí-la. Pelo menos assim o é em teoria. Pois ao tentar se contorcer mais uma vez, ao se forçar apontar na direção que lhe é cobrada, nosso viajante explode em ira:

— Ao inferno! Ao inferno todo isso! Minhas próprias forças é um demônio! Já não as tenho; subtraíram-me, minhas forças. Já não consigo me mover como antes, apenas me virar em torno de mim mesmo, debilmente. Estou aí, à deriva, vagando como um errante, rumando ao inexorável. Sou um pobre, um pobre mesmo e chego a ter pena de mim, dessa minha situação, de meu dilema, de minha impotência.

Desespera-se, nosso viajante, culpa-se, deprecia-se, excede os limites do razoável. Mas em seguida, acho mesmo que em decorrência dessa cena lamentável, acalma-se consideravelmente e recobra um pouco da consciência abalada. É nesse momento, que no peito do nosso viajante, no fundo do peito, beirando a alma, nasce um algo de esperança. E mesmo que inócua, e mesmo que desarrazoada em sua essência, e mesmo que com a esperança venha sempre o temor — como dizia aquele livrinho pardo, do francês, parafraseando Spinoza — ele se sente melhor, amparado, reconfortado na plenitude de sua ignorância, pois é humano afinal, e é justo que seja, pois é frágil, tolo e bravo. E isso basta!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Ensaio sexto

Depois de tanto tempo de reflexão, de meditação, chega-se, irremediavelmente, a este momento que nos aguarda. O momento em que se faz necessária a intervenção consciente sobre o puro acaso. Não podemos conter a corredeira inteira o tempo todo, é bem verdade; mas somos capazes, porque o aprendemos a ser, de transpor pequenos trechos desta, de intervir de maneira premeditada desviando pequenas porções deste fluxo incessante. O momento que nos aguarda se difere dos demais, e isso é bem sabido, e isso é impossível de se ignorar; e é por esta mesma razão que a ele, e a seus congêneres, atribuímos tamanha importância, destacando para, e a eles empregando, esforços redobrados. Sabes também que tais momentos destacam-se por uma dificuldade característica, como não poderia deixar de ser. Mas sabes também, por experiência adquirida, que é nesses momentos difíceis que tu cresces e consegues realizar coisas diferenciadas. Sabes que a força há de aparecer no momento certo, e que, de certo, não te abandonarás enquanto dela precisares. Sabes que confio em ti mais que a qualquer outro, e sabes também, e é bom que saibas, que apesar disso saberes, e apesar de seres pretenso como poucas vezes vi, continuas com os pés cravados na humildade e cônscio de suas fraquezas, medos, limitações e IGNORÂNCIA. Tome um gole de ar dessa noite gelada; contemple mais uma vez, e demoradamente, as estrelas que rasgam o firmamento às trevas; atente para o silêncio que agora emana da selva ao seu redor; faça uma última prece; dela duvide uma última vez; e recolha-te. Recolha-te que o amanhã há de surgir e então, tu estarás pronto para ele.