O fato de não haver, no plano do diálogo, o emprego da força bruta, não assegura a existência de um ambiente onde reine a razão e a justiça, de sorte a conferir-lhe as mesmas imperfeições e desmandos encontrados nas disputas selvagens e brutais da natureza; com a ressalva, entretanto, de não punir os participantes de tais embates com mutilações, ou até mesmo a morte, no caso de derrota. Ao menos não no sentido usual de tais desígnios.
No entanto, não posso dizer que é o ser humano incapaz de elaborar raciocínios e formar juízos guiado pura e simplesmente pela razão; muito embora, em alguns momentos de destempero, tenda a defender tal teoria. Em contra partida, não posso também ignorar o fato de que diversas vezes o mesmo ser humano utiliza-se da razão, i.e. de todo o seu maquinário intelectual, para justificar e defender posições no intuito único de respaldar comportamentos e atitudes absolutamente pueris, florescidas no âmago daquilo que, na falta de melhor designação, chamaria de dragões do egoísmo; seres que habitam uma região próxima à boca do estômago — como é bem sabido por todos aqueles que estudaram o célebre livro de H. Martin e R. Lindsay Anatomia Emocional — e de características bastante particulares: cegos e invisíveis, dotados de um humor imprevisível e de uma fúria implacável — como é também bem sabido pelo público estudioso do livro Seres que nos habitam e seus comportamentos do grande autor russo A. Romanov.
Tudo isso pra justificar minha teoria de que é sim possível perder uma discussão mesmo quando se tem total razão no ponto de vista defendido. Pois uma vez que o diálogo não garante um ambiente onde impere a justiça, há naturalmente um desequilíbrio de forças, que estabelece a noção de poder, seguido da disputa pela sua obtenção e controle. Como consequência imediata, temos o surgimento de seres mais poderosos em tal modalidade, que sem grandes dificuldades conseguem superar seus oponentes através de abusos permitidos pela posição privilegiada que ocupam. Dessa forma, mesmo defendendo ideais desprivilegiados dos pontos de vista racional e ético, obtêm sucesso em suas empresas através da desmoralização do oponente, que, por mais absurdo que pareça, sente-se em situação inferior, perdendo desta forma toda a confiança em seus próprios argumentos. E como bem sabemos — segundo o best-seller de G. Benjamin A origem das emoções; mapeando a mente e decifrando o comportamento humano — o homem sem confiança é a mais frágil das instituições.
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