quarta-feira, 18 de maio de 2011

Ensaio décimo

Ia sentar-me para escrever sobre um assunto que, francamente, já não me lembro. Bastou sentar, pegar o lápis e o papel para o pensamento anuviar-se, este mesmo que há bem pouco me era claro e promissor. Mediante tal empecilho, advieram as seguintes linhas.

Já cedo te escondestes? Apareças! pensamento, que é teu senhor quem te ordena. E se peço a ti que te reveles, que das brumas já te esvaias, é porque notei-te ainda pouco, não furtivo e sorrateiro, mas altivo e vigoroso.
Não me enganas não, a mim; se não te acho te procuro, e hei de acharte! o quão me tarde, pois és-te a mim caro, oh! miserável, e em mim resides, tu não me escapas!
Já não me lembro, é bem verdade, de como eram tuas nuances. Que cheiro tinhas, que rosto usavas, que impressões em mim causavas. Ao procurar-te tenho a impressão de que minha mente vem socorrer-te, presta-te auxílio, a ti, dolo a mim, pobre doente. A fuga tua a acobertar, apresentando-me outros artigos, uns bem bonzinhos, jamais fiéis à tua fôrma que te fizestes.

Vejam: e o que era prosa virou poesia, das mais ruins, se me permitem. Pois eu então irei cantá-la, já que tu fê-la presente. Sim, pois fostes tu que a criastes, guiando-me por tais correntes. Oh! pensamento, tu és demônio, és tu que animas todas as gentes. Ao menos deixais de lado, eu vos suplico, a tosca rima, melifluente. Se não sois vós torno a tu, que é pouco austero e mais prudente.

Já pouco importa do estilo e do final. Do primeiro se é poesia, ainda que pobre, humildezinha; ou prosa densa, articulada e arquitetada, como os engenhos da humanidade. Do final, pois é-me fácil, a mim, de antever o que se passa e se dará. Já deu-se, já, e é bem sabido: vencido fui, vencido estou, vencido sou. O bandido escapou-me, e fiquei eu de mãos à toa. E o que me resta? Questionará aquele que está, e sempre está, um passo à frente, antecipado e antecipando, sempre de chofre, sempre na sombra, a tatear fora das luzes, o vanguardista do pensamento. Restar-me-á, redarguirei, o que restou, o que me resta, o que me presta. Seguir tentando é meu destino, e cá pra nós, quase em sigilo, é meu prazer, gozo divino.

E tu não findas! oh mal-amado, cansado estou e não mais te aguento. Largar-te-ei; te falta brilho; sou eu teimoso, e, se me fosse dado, ao infinito polir-te-ia. Mas entre aqui e o infinito, fico aqui, que é bem mais perto. O infinito, deixá-lo-ei, para outra hora, para outros versos.

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