sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Fragmentos

No começo do ano tive que ler Descartes — Meditações Metafísicas — e Leibniz — Discurso de Metafísica — na faculdade e foi um pouco estranho. Acho que até agora não sei ao certo definir o que penso e sinto a respeito desses textos que li e das ideias que esses dois impressionantes autores neles apresentam. A princípio me chamou muito a atenção o fato de ambos darem tanta importância à questão de Deus; de sua existência, de sua caracterização, de sua relação com a natureza e com a vida dos homens. Não que eu não soubesse que esses autores, assim como outros de suas épocas, versassem sobre esses assuntos e pensasse somente que tinham inventado um a geometria analítica e o outro o cálculo diferencial. Mais ainda assim, tendo eu total desconhecimento do teor desses trabalhos, me foi um pouco estranho ter contato com esse "lado B" de Descartes e Leibniz. Quero dizer, estes senhores não eram padres, teólogos, ou algo do gênero; estes senhores eram simplesmente a "linha de frente" da ciência em suas respectivas épocas. 
Descartes, como eu já disse, inventou a geometria analítica. O que isso quer dizer? Quer dizer que ele algebrizou a geometria; que ele pegou tudo aquilo que era alvo de estudo desde Euclides e pôs sob uma nova e revolucionária representação; que ele pegou por exemplo um círculo, que era até então uma figura, uma imagem se preferirem, e transformou nisto: x2+y2=r2, em uma equação algébrica. Posto assim pode parecer simplório, mas as consequências que essa nova representação trouxe para a matemática, a física e para a humanidade em geral foram grandiosas. Com o advento da geometria analítica Descartes, pode-se mesmo dizer, geometrizou por fim a física, isto é, os corpos que ela estudava e o espaço no qual estavam imersos. Isto para nós parece uma trivialidade, a ponto de ao me deparar pela primeira vez com essa afirmação, de que "Descartes geometrizou a física", achá-la sem sentido. Ora, isso se justifica pelo fato de que para nós, herdeiros da ciência moderna, não faz sentido algum uma física desgeometrizada; tudo aquilo que entendemos por física se escora, em última instância, na representação geométrica de seus entes em linguagem matemática. Talvez só recentemente, com o advento da mecânica quântica, essa representação geometrizada da natureza tenha vindo a sofrer alguma ruptura, mas essa é uma suposição da qual não estou muito certo e que mereceria uma discussão mais detida em outro momento e em outro lugar.
Leibniz, por sua vez, não ficou atrás; juntamente (ou paralelamente) a Newton inventou o cálculo infinitesimal, que finalmente possibilitou ao homem tratar de maneira coerente o movimento de partículas sobre trajetórias arbitrárias, e a finalmente estabelecer de maneira precisa a relação guardada entre posição e velocidade como taxa de variação da posição com o tempo, e entre velocidade e aceleração como taxa de variação da velocidade com o tempo. Essas ideias estão na base da mecânica newtoniana, que foi, ouso dizer, a coisa mais revolucionária que a humanidade já viu nascer, não tanto por seu conteúdo, embora este por si só fosse forte candidato ao posto, mas principalmente pelo amplo e aparentemente infindável horizonte de novas aplicações e desenvolvimentos que possibilitou, que ao meu ver, reforçando o que disse acima, não encontra paralelo com nada produzido pelo intelecto humano.
Pois bem, não obstante essa curta digressão enaltecendo esses, sem dúvida, gênios do pensamento moderno ocidental, devo agora retornar ao raciocínio inicial e articulá-lo a essa singela exposição das conquistas que Descartes e Leibniz trouxeram para a Física e a Matemática. Não por coincidência, os dois textos que citei de início trazem consigo o termo Metafísica no título. "Metafísica" no grego quer dizer literalmente "além da física", e desde a Antiquidade intitula uma das áreas de estudo mais emblemáticas da Filosofia. Ao longo do tempo o termo foi agregando diferentes nuanças de significado e até mesmo redefinições de sentido de acordo com o emprego que determinados filósofos ou correntes filosóficas fizeram da palavra. No entanto, apesar dos diferentes perímetros abarcados pela metafísica em cada um dos diferentes contextos, em cada um dos diferentes autores nos quais foi explorada, pode-se dizer que há um lugar comum a todas elas, e que esse lugar comum certamente escapa, extrapola os domínios da física, qualquer que seja a época considerada. No caso de Leibniz e Descartes não foi diferente. Ambos, em concomitância com seus trabalhos em Física e Matemática, e fundamentando esses últimos, desenvolveram sua própria Metafísica, que a exemplo de sua Física e Matemática era absolutamente extraordinária e ambiciosa. O alcance que esses autores pretendiam dar à razão humana através de suas teses metafísicas, se não beirava o infinito, ao menos expandia imensamente as fronteiras do saber lançando luzes sobre uma área gigantesca do conhecimento que se mantinha outrora velada pelas trevas da ignorância. Para se ter uma noção do tamanho desses empreendimentos e da profundidade de significado que carregavam basta dizer que o que pretende Descartes em suas Meditações é nada mais nada menos que provar a existência de Deus como se fora um teorema da geometria, isto é, de forma a não restar dúvida alguma, não só no que diz respeito a sua existência, mas também no que diz respeito a sua correta caracterização. E o faz; de maneira crível para ele, devo acreditar; mas de maneira risível, até, para nós, conhecedores dos demais capítulos dessa história e esclarecidos nos assuntos que vieram a suceder os pensamentos cartesiano e leibniziano. Quero dizer, duvido muito que alguém nos dias de hoje, minimamente instruído, encare realmente as "provas" que Descartes dá da existência de Deus como provas verdadeiras, isto é, no sentido em que elas são encaradas nas ciências atuais, sobretudo na Física, que desde os últimos séculos apresentou-se como carro-chefe das ciências naturais. Um cientista contemporâneo, se vencesse o preconceito inicial e se dispusesse a ler de maneira detida as Meditações, iria sentir, já na primeira prova da existência de Deus apresentada por Descartes — a consagrada "prova pelos efeitos" — uma estranheza na definição pouco precisa, ou pouco objetiva, que ele faz dos conceitos fundamentais utilizados na demonstração. Embora não venha ao caso entrar aqui em detalhes sobre essa questão, parece-me que essa estranheza nasce da comparação, até mesmo inconsciente, forçada pelo costume, da grandeza que ele define como "realidade" de uma causa ou de um efeito, com qualquer uma das grandezas físicas que encontramos nas ciências atuais. O que me salta aos olhos, que falta à primeira e encontra-se nas segundas, é a mensurabilidade de tais grandezas. O que quer dizer a "realidade" de um objeto do ponto de vista experimental? Pois esta parece-me a objeção central que a ciência contemporânea deveria fazer à prova de Descartes, quero dizer, é por isso que levamos a sério a ciência que fazemos, pois nela todas as grandezas definidas, por exemplo: carga elétrica, massa, energia, etc., são passíveis de medição laboratorial, e é através do resultado dessas medições comparado com as previsões numéricas fornecidas pelo modelo teórico que descartamos ou validamos determinada tese. Dando sequência a esse raciocínio, parece-me que a estranheza que senti ao ler esses textos citados e que mencionei no início deste texto, me foi provocada por um espírito cientificista no qual a verificação empírica desempenha um papel fundamental na determinação das verdades acerca da natureza, verificação empírica esta que não se encontra, de maneira alguma, nas investigações metafísicas de Descartes e Leibniz.
E é aqui então que devo introduzir o assunto principal deste texto e que me motivou a escrevê-lo. Trata-se do seguinte fragmento do filósofo escocês David Hume, retirado de sua obra intitulada Investigação sobre o entendimento humano. A filosofia de Hume, frequentemente classificada como empirista ao lado da dos também britânicos John Locke e George Berkeley, em boa medida confronta a metafísica excessivamente abstrusa — para usar um termo do próprio autor — desenvolvida durante o século XVII, sobretudo a metafísica cartesiana. Já no início desta sua Investigação Hume faz uma bipartição entre os diferentes tipos de filosofia existentes e descrimina em cada caso os objetivos principais da cada uma delas. Há então uma filosofia simples e acessível, que vê o homem, sobretudo, como um ser nascido para a ação e que visa, portanto, exaltar a virtude e despertá-la em nossos corações. Por outro lado há uma filosofia mais abstrata e recôndita, que vê o homem agora como um ser preponderantemente racional, e que visa, em virtude dessa racionalidade, obter princípios mais gerais capazes de reger o funcionamento de todo o universo. O que Hume buscará ao longo da obra, e com a obra, é estabelecer os limites do entendimento humano, e isso, em alguns momentos, irá conflitar com o alcance pretendido pelo tipo de filosofia abstrusa desenvolvida por exemplo por Leibniz e Descartes. No entanto, é mister que se diga, Hume não acredita que esse segundo tipo de filosofia seja de todo errado; dá a entender que há algo de valioso nessa forma de pensamento, mas que certamente exageros podem ser cometidos, e provavelmente foram, de tal forma que uma filosofia fruto desses exageros apresenta, inevitavelmente, erros e inconsistências. Hume dá a entender também que uma filosofia mais adequada deve necessariamente balancear esses dois tipos de filosofia apresentados acima, o que nos leva, portanto, a pensar que a filosofia por ele apresentada deve ser dessa particular forma.
Neste momento nada mais devo fazer do que não mais alongar-me e logo introduzir o trecho prometido, que em cotejo com esse longuíssimo prolegômeno que escrevi acima apresentará um contraste interessante, ressaltando sua bela escrita e esplêndida clareza de raciocínio. Ei-lo aqui:
"6. O homem é um ser racional e, como tal, recebe da ciência adequado alimento e nutrição. Mas são tão estreitos os limites do entendimento humano que pouca satisfação pode ser esperada neste aspecto, tanto quanto à extensão como à segurança das suas aquisições. O homem é um ser sociável, não menos do que um ser racional, mas nem sempre tem ocasião para dispor de companhia agradável e divertida, ou continuar a sentir por ela a atracção adequada. O homem também é um ser activo, e é obrigado por essa inclinação, assim como pelas variadas necessidades da vida humana, a dedicar-se a ocupações e negócios; mas o espírito precisa de algum descanso e não pode estar sempre pronto a seguir sua tendência para o trabalho e a diligência. Parece, então, que a natureza indicou um tipo de vida mista como o mais adequado para a raça humana, secretamente advertindo-a de que não deve permitir que qualquer dessas inclinações se imponha excessivamente, a ponto de nos incapacitar para outras ocupações e entretenimentos. Satisfaz a tua paixão pela ciência, diz ela, mas que a tua ciência seja humana, com directa referência à acção e à sociedade. Proibo-te o pensamento abstruso e as investigações recônditas, os quais castigarei severamente com a pensativa melancolia que produzem, com a infindável incerteza em que te envolvem e com a fria recepção que as tuas pretensas descobertas irão receber quando comunicadas. Sê um filósofo; mas, em meio a toda a tua filosofia, não deixes de ser um homem [grifo meu].
[...] O caminho mais agradável e pacífico na vida é aquele que segue pelas avenidas da ciência e do saber, e todo aquele que for capaz de remover algum obstáculo nesse caminho, ou descortinar novas perspectivas, deve, nessa medida, ser considerado um benfeitor da humanidade. E embora essas investigações possam parecer penosas e fatigantes, ocorre com alguns espíritos o mesmo que com alguns corpos, os quais, sendo dotados de uma saúde vigorosa e florescente, precisam de severo exercício e colhem prazer daquilo que para a humanidade em geral aparece como pesado e laborioso. De facto, a obscuridade é tão dolorosa para a mente como para a vista, mas obter luz a partir da obscuridade, seja qual for o esforço, será necessariamente motivo de júbilo e deleite.
11. Mas aquilo que se objecta à obscuridade da filosofia profunda e abstracta não é simplesmente que seja penosa e fatigante, mas que seja uma fonte inevitável de erros e incertezas. Aqui, de facto, assenta a objecção mais justa e plausível a uma parte considerável da metafísica, que ela não é propriamente uma ciência, mas ou deriva dos esforços infrutíferos da vaidade humana, que gostaria de penetrar em assuntos completamente inacessíveis ao entendimento, ou da astúcia das superstições populares que, sendo incapazes de se defenderem em campo aberto, cultivam todos esses espinhos emaranhados para esconder e proteger suas fraquezas. Expulsos do campo aberto, esses salteadores fogem para a floresta e ficam à espera de uma oportunidade para invadir qualquer avenida desprotegida do espírito, para o subjugarem com temores e preconceitos religiosos. Mesmo o mais forte antagonista será oprimido, se afrouxar a sua vigilância por um só momento. E há muitos que, por cobardia ou loucura, abrem de bom grado os portões aos inimigos, recebendo-os, com reverência e submissão, como se fossem os seus legítimos soberanos."

HUME, David. Investigação sobre o entendimento humano. In: Tratados Filosóficos I. Tradução de João Paulo Monteiro. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2002. pp. 26-8.

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