terça-feira, 26 de outubro de 2010

Ensaio oitavo

O homem passou em frente ao cemitério e viu, escrito no muro, os seguintes dizeres:

Aqui dentro não há homens maus; não por não serem maus, mas por não mais haverem.

Por alguma razão isto o marcou profundamente, e depois desse ocorrido pode-se mesmo dizer que o homem não foi mais o mesmo.

Mas que besteira! Nunca somos "mais os mesmos", independentemente do que nos aconteça. Não importa o que se passe, desde que se passe; é isso que faz a diferença. A história do universo não seria a mesma se alterássemos algumas bobagens no passado, por mais insignificantes que fossem. E por isso mesmo até o termo "insignificante" estaria mal empregado, e deveríamos pois repensá-lo com cuidado.

Outra besteira, maior ainda que a primeira. Tu és mesmo um campeão em erros de juízo, e comete-os amiúde. Que nunca somos "mais os mesmos" hei eu de concordar. Mas que "não importa o que se passe, desde que se passe" é uma das maiores besteiras que já ouvi em toda minha vida. E o que fazer com o conteúdo? Apenas abandoná-lo como se este fosse supérfluo e insignificante? Ignorá-lo de forma deliberada? Seria como dizer que as cores e suas diferentes tonalidades não importam nada à visão, que a esta bastam as formas e os contornos. Seria um aviltamento não somente aos objetos e ao mundo que nos rodeia, mas sobretudo à nossa própria subjetividade enquanto juíza de valores. Parvo! É isso que tu és: um parvo.

E quanto ao termo "insignificante" nada temos que repensar no que diz respeito à sua acepção. A palavra quer dizer exatamente o que deve dizer e sua função é indispensável na nossa língua, pois representa uma ideia que é absolutamente fundamental que é a ideia de insignificância assim como a compreendemos. O problema, se encontra no fato de questionarmos se há ou não realmente no mundo coisas insignificantes, no sentido literal da palavra. É uma questão restrita ao empirismo! E mesmo que não haja, mesmo que se verifique que no fundo no fundo tudo no universo é significante, isso de forma nenhuma descredenciaria a insignificância enquanto ideia, enquanto ideal, da mesma forma que não eliminamos os dragões de nosso vocabulário pelo simples fato de não existirem de verdade.

Mas esta agora? Será possível? Será mesmo possível que tenhas invocado até mesmo dragões só para contrariar-me? Logo a mim, que sou tu. Quanta apelação! E me julgas, me condenas, me chamas por parvo mas nem ao menos dá-se conta que cometes tu também um erro de juízo. Jamais disse que deveríamos repensar o conceito imbuído em "insignificante"; fiz críticas relativas somente ao seu emprego, e isso quer dizer, necessariamente, críticas aos empregadores, que somos todos nós, incapazes de observar com acuidade que na verdade há sim significância por trás daquilo que outrora julgamos insignificante; e em momento nenhum fiz alusão alguma à possibilidade de haver ou deixar de haver insignificância nos objetos do mundo, embora concorde com a hipótese que levantastes de que é esse um problema que concerne ao empirismo e que dispensa, portanto, qualquer especulação do ponto de vista teórico. Portanto, meu caro, deverias te envergonhar profundamente pois não fostes nem ao menos digno de corrigir um parvo como eu corretamente. Se sou eu um parvo, e assumo que sou, tu o és em dobro!

O que? Que foi? Mas...não, espera! Não, não chores. Por Deus! sei bem que às vezes me falta melindre na forma como explano-te os pensamentos, mas te assevero que se há uma razão para tal é porque te amo e te conheço profundamente. Costumamos perder a delicadeza frente às pessoas que mais amamos, sei que parece estranho, não me orgulha nem um pouco dizer isso, mas é como se dá. Não há razão para amuar-se assim, venha, tome este lenço, seca-te.

Me desculpas, por favor. Tens razão, sou mesmo um parvo.

Não, não te culpes assim.

Não, sou sim. Sou um parvo porque quis eu ter razão, e isso é egoísmo. E o egoísmo é sim condenável.

Nesse sentido sou eu também culpado, porque quis também ter razão e fui pois egoísta. Ambos fomos, é a bem da verdade, ambos fomos. Venha, esqueçamos por hora esse assunto, esqueçamos.

Tens razão, esqueçamos. Espera! Mas e a história do homem, que leu os dizeres no muro, que suscitou toda essa discussão. O que deu-se com ele?

Ah isto? É insignificante.

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