sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Ensaio décimo primeiro

E esta é a história de Jerônimo; e é assim que ela começa: de uma ideia, brilhante ideia, mas tão simples, tão óbvia que surpreende-me que ninguém antes de Jerônimo tenha tentado levá-la a cabo. Se bem que analisando friamente deve-se obrigatoriamente reconhecer que "levá-la a cabo" não seria nada fácil, ao contrário, só de pensar vê-se que essa seria uma empresa somente para homens verdadeiramente obstinados; obstinados como Jerônimo. E é isso. Essa é a razão pela qual dispus-me a aqui descrever a história de Jerônimo: ele teve uma ideia! E a partir desta ideia construiu ele mesmo sua história, uma história tão fascinante que é mister contá-la, pois é isso que pede-se aos contadores de história, que em face de uma história fascinante a conte, a transmita aos outros e não a deixe morrer prematuramente, e em contrapartida, é isso que pede-se às histórias, que sejam fascinantes, que obriguem os contadores de história a — uma vez tendo tomado seu conhecimento — contá-las. E o que torna essa história, a história de Jerônimo, fascinante? Como adiantado, é sua ideia; sim, mas que ideia é esta? Digo a vós, então, sem mais rodeios, sem grandes floreios, pois não me são estes próprios, eu que não sou um Cervantes, Victor Hugo ou Dostoiévski, eu que sou — assumo — pobre no estilo e na retórica e pouco ilustrado no vernáculo. Jerônimo decidiu virar Papa. Sim, Papa! E por que razão? Aí está a genialidade de Jerônimo: porque descobriu-se ateu. Jerônimo foi mesmo um gênio. Quando muitos, ao descobrirem-se ateus, ou converterem-se ao ateísmo — peço aqui desculpas ao leitor pois de fato não sei ao certo que verbo empregar, não sei como se torna ateu, se por revelação, se por pura teimosia ou se por decisão deliberada, sei somente que no caso de Jerônimo, Jerônimo descobriu-se ateu, e era assim que gostava de dizer —, desejaram afastar-se o mais que podiam da Igreja e de suas doutrinas, Jerônimo desejou o contrário: ir ao seu encontro, penetrar-lhe as raízes, as entranhas, atingir seu âmago e conquistar seu posto mais alto: Sua Santidade. O plano era simples, pueril, pode-se mesmo dizer. "Torno-me Papa e proclamo-me ateu. Pronto! Que será da Igreja Católica se tiver um Papa ateu? Ruirá desgraçadamente, e a mim caberá somente assistir ao seu ocaso lá do alto." — pensava Jerônimo. No entanto, quem em sã consciência acreditaria que alguém seria capaz de executar uma ideia assim tão mirabolante? De dedicar esforços tão grandes e anos, vários anos, de sua vida a um empreendimento assim tão incerto e concebido de maneira tão impulsiva? Não obstante, quem, desses, não coçaria-se de curiosidade para ouvir a história de um sujeito que dizem ter feito tudo isso? Quem não deixaria-se encantar com a loucura de Jerônimo? Tal é a razão pela qual — reitero — sou obrigado a contar essa peripécia; tal é a razão pela qual sou compelido agora a retornar a Jerônimo e a sua infância.

CONTINUA...

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