segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Teorias do Absurdo III

Não existem ateus em trincheiras.

James Whitaker (ou algo que o valha)

Na hora do desespero o ser humano se vale de tudo que tem ao seu alcance para tentar se salvar. Arrisco dizer que é somente nesse momento, nesse breve momento, devo reforçar, que o ser humano consegue se despir de todas as fantasias, de todos os personagens que utiliza em seu cotidiano, e se mostrar em seu estado natural. Intrigante notar que somente uma situação dessas, onde não há mais nada a perder, faz com que o ser humano consiga, finalmente, ser honesto de maneira integral. Fascinante!

Me lembro de ter lido em alguma parte de Crime e Castigo alguém citar uma frase, se não me engano de Victor Hugo, bastante interessante, também à respeito desse assunto. Era algo como se se perguntasse à um condenado à morte, se ele aceitaria trocar sua sentença por viver o resto de sua vida vendado e amarrado, sobre um pico rochoso, com espaço somente para apoiar seus pés, e sob uma tempestade castigante. Ainda assim, dizia Victor Hugo, o condenado preferiria viver. Ainda que em tais condições miseráveis, o condenado preferiria a vida à morte.

O que estava tentando dizer, já temendo ser prolixo, é que é necessária uma situação de risco iminente para iluminar nossos sentimentos a ponto de conseguirmos discerní-los de maneira precisa. Como se tais situações tivessem a capacidade de resolver nossa alma com uma precisão que as demais situações ordinárias não têm. E resolver, aqui, empregado no sentido em que empregaria um fotógrafo, que tenho certeza há de me compreender. O fascinante nessa reflexão é a conclusiva. Uma vez que assumimos verdadeiras as premissas referidas acima, somos levado a concluir que nosso estado natural de consciência é a ignorância. A ignorância instintiva tal qual aquela que observamos em um cachorro que se assusta com um trovão, ou um grande barulho misterioso. Quando a casa cai, deixamos de lado todas as idiotices que, sabe-se lá porquê, fingimos ser importantes, e nos damos conta de que agimos a maior parte do tempo exatamente como uma criança em uma brincadeira. Pois estamos o tempo todo fingindo, no entanto, levamos extremamente a sério o papel que interpretamos, como se houvesse ali um compromisso de espírito com a brincadeira; exatamente, volto a dizer, como faz uma criança que ao invadir o reino encantado de Falksland não se deixa afetar pelo fato de estar, ela própria, montado em uma singela vassoura. Não, até o momento em que lhe é trazida à realidade pelo risco iminente de uma surra, que um adulto qualquer lhe promete caso não pare de brincar com os materiais de limpeza da casa.

E por que a ignorância? Retomando o raciocínio elaborado há pouco. Por que é a ignorância o nosso estado de espírito natural? Porque, acompanhe o raciocínio, quando nos deparamos com uma situação dessas, de risco iminente, e que nos obrigam a assumir nossas verdadeiras convicções, tememos o pior. E exatamente nesse momento, seguindo a linha de raciocínio dos autores citados, o ser humano congela e implora por piedade. Por piedade de quem? Por que razão implorar piedade?

Pela piedade de Deus, diria o incauto.

Não, eu insisto. Não é pela piedade de Deus que o condenado implora. É por piedade somente. Alguma piedade, por qualquer piedade, por qualquer coisa que se assemelhe a piedade, já não importa de quem, de onde, não importa nem ao menos o que seja piedade. É um sentimento instintivo, sem fundamento nenhum no pensamento racional, e portanto impossível de se traduzir desta maneira. É o desejo em sua forma mais primitiva e natural, a manifestação patente da ignorância.



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