[...] Mas, afinal, quem era eu realmente? A essa pergunta quero responder com toda honestidade: eu era aquele que tinha muitas caras.
E o número delas ia aumentando. Mais ou menos um mês antes das férias, comecei a me aproximar de Marketa (ela estava no primeiro ano e eu no segundo) e fazia o possível para impressioná-la, da mesma maneira tola que os rapazes de vinte anos de todos os tempos: disfarçava-me com uma máscara; fingia ser mais velho (mentalmente e por minhas próprias experiências); fingia manter distância em relação a todas as coisas, observar o mundo do alto e vestir por cima da minha pele uma segunda epiderme, invisível e à prova de balas. Desconfiava (aliás com razão) que a brincadeira exprime claramente a distância, e, se sempre gostei de brincar, com Marketa eu o fazia de maneira especialmente cuidadosa, artificial e afetada.
Mas que eu era de fato? Sou obrigado a repetir: eu era aquele que tinha muitas caras.
Durante as reuniões, era sério, entusiasta e convicto; desenvolto e brincalhão em companhia dos colegas; elaboradamente cínico e sofisticado com Marketa; e, quando estava só (quando pensava em Marketa), era humilde e encabulado como um colegial.
Essa última cara seria a verdadeira?
Não. Todas eram verdadeiras: eu não tinha, a exemplo dos hipócritas, uma cara autêntica e outras falsas. Tinha muitas caras porque era moço e porque não sabia eu mesmo quem era e quem queria ser. (No entanto, a desproporção existente entre todas essas caras me dava medo; a nenhuma delas eu aderia por completo, e por trás delas evoluía, desajeitado, às cegas.) [...]
[...] Meu comandante me parecia simplesmente um rato vingativo e dissimulado. Eu o vejo hoje sobretudo como um homem que era jovem e que representava um papel. Afinal, se os jovens representam, não é culpa deles; inacabados, a vida os coloca num mundo acabado, no qual se exige que eles se comportem como homens feitos. Eles se apressam consequentemente, em se apropriar de formas e de modelos, aqueles que estão em voga, que combinam com eles, que lhes agradam - e representam um papel.
Nosso comandante também era inacabado e uma bela manhã se viu frente a nossa tropa, perfeitamente incapaz de compreendê-la; mas tinha conseguido sair-se bem, pois aquilo que lera e ouvira oferecia-lhe uma máscara perfeita para situações análogas: o herói implacável das histórias em quadrinhos, o jovem macho com nervos de aço dominando um bando de bandidos, nada de grandes conversas, apenas a cabeça fria, um humor despojado que acerta bem no alvo, a confiança em si e no vigor de seus músculos. Quanto mais consciência tinha de seu aspecto de garoto, mais fanatismo ele punha no seu papel de super-homem.
Mas era a primeira vez que eu encontrava um jovem ator como aquele? Na época do meu interrogatório na secretaria do Partido sobre o cartão-postal, eu tinha pouco mais de vinte anos e meus interrogadores tinham apenas um ou dois ano mais. Eles também eram, antes de mais nada, garotos escondendo seus rostos inacabados atrás da máscara que consideravam a melhor de todas: a do revolucionário ascético e inflexível. E Marketa? Não teria ela escolhido representar a salvadora, papel aliás repetido num insípido filme da temporada? E Zemanek, subitamente tomado pela exaltação patética da moral? Não seria isso representar um papel? E eu? Será que eu não estava representando muitos papéis? Em confusão, corria de um papel a outro até o momento em que, embaraçado, fui apanhado.
A mocidade é horrível: é um palco em que, representando tragédias com as roupas mais variadas, crianças se agitam e proferem fórmulas decoradas que compreenderam pela metade e às quais se agarram fanaticamente. A História também é horrível: serve muitas vezes de palco de exibição para os imaturos; palco de exibição para um jovem Nero, para um jovem Bonaparte, para as multidões de crianças eletrizadas, cujas paixões imitadas e cujos papéis simplistas se transfiguram numa realidade catastroficamente real. [...]
E o número delas ia aumentando. Mais ou menos um mês antes das férias, comecei a me aproximar de Marketa (ela estava no primeiro ano e eu no segundo) e fazia o possível para impressioná-la, da mesma maneira tola que os rapazes de vinte anos de todos os tempos: disfarçava-me com uma máscara; fingia ser mais velho (mentalmente e por minhas próprias experiências); fingia manter distância em relação a todas as coisas, observar o mundo do alto e vestir por cima da minha pele uma segunda epiderme, invisível e à prova de balas. Desconfiava (aliás com razão) que a brincadeira exprime claramente a distância, e, se sempre gostei de brincar, com Marketa eu o fazia de maneira especialmente cuidadosa, artificial e afetada.
Mas que eu era de fato? Sou obrigado a repetir: eu era aquele que tinha muitas caras.
Durante as reuniões, era sério, entusiasta e convicto; desenvolto e brincalhão em companhia dos colegas; elaboradamente cínico e sofisticado com Marketa; e, quando estava só (quando pensava em Marketa), era humilde e encabulado como um colegial.
Essa última cara seria a verdadeira?
Não. Todas eram verdadeiras: eu não tinha, a exemplo dos hipócritas, uma cara autêntica e outras falsas. Tinha muitas caras porque era moço e porque não sabia eu mesmo quem era e quem queria ser. (No entanto, a desproporção existente entre todas essas caras me dava medo; a nenhuma delas eu aderia por completo, e por trás delas evoluía, desajeitado, às cegas.) [...]
[...] Meu comandante me parecia simplesmente um rato vingativo e dissimulado. Eu o vejo hoje sobretudo como um homem que era jovem e que representava um papel. Afinal, se os jovens representam, não é culpa deles; inacabados, a vida os coloca num mundo acabado, no qual se exige que eles se comportem como homens feitos. Eles se apressam consequentemente, em se apropriar de formas e de modelos, aqueles que estão em voga, que combinam com eles, que lhes agradam - e representam um papel.
Nosso comandante também era inacabado e uma bela manhã se viu frente a nossa tropa, perfeitamente incapaz de compreendê-la; mas tinha conseguido sair-se bem, pois aquilo que lera e ouvira oferecia-lhe uma máscara perfeita para situações análogas: o herói implacável das histórias em quadrinhos, o jovem macho com nervos de aço dominando um bando de bandidos, nada de grandes conversas, apenas a cabeça fria, um humor despojado que acerta bem no alvo, a confiança em si e no vigor de seus músculos. Quanto mais consciência tinha de seu aspecto de garoto, mais fanatismo ele punha no seu papel de super-homem.
Mas era a primeira vez que eu encontrava um jovem ator como aquele? Na época do meu interrogatório na secretaria do Partido sobre o cartão-postal, eu tinha pouco mais de vinte anos e meus interrogadores tinham apenas um ou dois ano mais. Eles também eram, antes de mais nada, garotos escondendo seus rostos inacabados atrás da máscara que consideravam a melhor de todas: a do revolucionário ascético e inflexível. E Marketa? Não teria ela escolhido representar a salvadora, papel aliás repetido num insípido filme da temporada? E Zemanek, subitamente tomado pela exaltação patética da moral? Não seria isso representar um papel? E eu? Será que eu não estava representando muitos papéis? Em confusão, corria de um papel a outro até o momento em que, embaraçado, fui apanhado.
A mocidade é horrível: é um palco em que, representando tragédias com as roupas mais variadas, crianças se agitam e proferem fórmulas decoradas que compreenderam pela metade e às quais se agarram fanaticamente. A História também é horrível: serve muitas vezes de palco de exibição para os imaturos; palco de exibição para um jovem Nero, para um jovem Bonaparte, para as multidões de crianças eletrizadas, cujas paixões imitadas e cujos papéis simplistas se transfiguram numa realidade catastroficamente real. [...]
Milan Kundera em "A Brincadeira"
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