sábado, 2 de maio de 2009

Fragmentos

[...] Tais cavalheiros oniscientes são encontrados muitas vezes em uma certa camada da sociedade. Sabem tudo. Tanto a sua insaciável curiosidade como as suas aptidões de espírito inclinam-se irresistivelmente em uma direção, sem dúvida por falta de idéias e de interesses mais importantes na vida, como diria um pensador moderno. Mas as palavras "eles sabem de tudo" devem ser tomadas aqui em um sentido quiçá limitado: em que departamento fulano trabalha; que espécie de amigos tem; quais os seus proventos; onde foi governador; quem é sua mulher e que dote lhe trouxe; quais são os seus primos de primeiro grau; quais os de segundo; e outras coisas deste jaez. A maioria de tais cavalheiros oniscientes vive com as mangas coçadas nos cotovelos e recebe um ordenado de dezessete rublos por mês. As pessoas de cujas vida eles conhecem todos os pormenores ficariam perplexas se lhes fosse dado imaginar suas intenções, mas muitos desses cavalheiros arrancam de tais conhecimentos uma consoloção sobremaneira positiva, o que importa em uma ciência completa, disso derivando um auto-respeito e o mais alto prazer espiritual. Não se pode negar que se trata de uma fascinante ciência. Farto estou de haver visto homens cultos, literatos, poetas, políticos que procuraram e acharam nessa ciência o seu mais elevado conforto e sua última finalidade, apenas tendo conseguido fazer carreira mediante emprego de tais dons. [...]

Fiódor Dostoiévski em "O Idiota"

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